Conhecendo o amor – parte 2

Finalmente chegou o dia do aniversário da Clara. Eu me arrumei bastante, troquei de look umas cinco vezes até chegar no óbvio: uma calça jeans, um salto alto e uma blusa branca mais soltinha.
Chegando na festa, vi o carro da minha irmã. Isso já me deixou mais confortável, afinal não queria ficar “jogada” na festa. A casa era muito linda. De fora, eu já escutava as risadas e um som tocando aquele ótimo CD do Engenheiros do Hawai: Acústico MTV. Toquei a campainha e apareceu uma senhora oriental, bem educada. Estava na cara que era parente dela (na cara, literalmente).
– Oi. Boa noite, a Clara está?
– Boa noite. Ela está lá dentro, você é?
– Ah, me desculpe. Eu sou Luíza, amiga da Clara, irmã da Dra. Heloísa.
– Ah sim, sim. Entre, fique à vontade. Sua irmã já chegou.
– Obrigada! Pois é, viemos em carros separados. A senhora é…
– Mãe da Clara. Eu me chamo Satiko.
– Muito prazer em conhecê-la, Satiko.
– O prazer é meu, fique à vontade. É uma festinha simples, só pra não passar em branco uma data tão especial.
– Está certa, é uma data especial sim. Adoro festinhas assim. Bom, vou indo. Mais uma vez obrigada pela recepção.
– Eu que agradeço por vir.
Dona Satiko era uma senhora muito simpática. Festa animada, todos bebendo algo, conversando, alguns dançando. Em um canto, estava a minha irmã e o meu cunhado. Resolvi me aproximar.
– Lú!
– Oi Helô! Oi Rick!
– Oi cunhadinha! Está linda!
– Seu marido, hein Helô. Sempre gentil.
– É verdade. Eu falo que com um marido assim quem precisa de injeção de ânimo?
Todos nós rimos e ficamos por um tempo ali.
– Bom, vou deixar os pombinhos à vontade e vou procurar a aniversariante.
– É, cunhadinha, estou sabendo da sua paixonite. Que meigo.
– Amor! (risos) – minha irmã beliscou o maridão dela.
– Não acredito que você contou pro palhaço do seu marido.
– Desculpa mana, é que eu achei tão bonitinho.
– Aff!
– Cunhadinha. Já aviso: prepare o coração, porque a Clara está deslumbrante.
– É verdade, mana. Ela está muito linda.
Depois de tanta publicidade, resolvi sair de perto daqueles dois e ir procurar pela Clara. A festa estava animada. Depois de um tempo, finalmente achei-a. Estava de costas pra mim, mas já dava pra ter uma noção de que ela realmente estava linda.
Cheguei meio sem jeito. Ela estava com um grupo de amigos, rindo.
– Oi gente. Desculpa atrapalhar. Vim dar um beijo na aniversariante.
E ela se virou e deu um sorriso que iluminou meu mundo.
– Que bom que você veio. Venha aqui, deixa eu te ver. Nossa, tá linda!
– Digo o mesmo, você está linda!
Abaixei-me e dei um abraço nela, bem apertado e demorado.
– Galera, essa é a Luíza, irmã da minha fisioterapeuta, a Dra. Heloísa.
– Oi, gente. Prazer em conhecê-los.
Todos foram muito simpáticos, mas não queria atrapalhar a conversa.
– Bom, a gente se vê por aí. Só vim mesmo te dar um beijo.
– Onde você vai?
– Vou ficar ali perto da minha irmã.
– Claro que não. Pessoal, abre a roda aí que ela vai sentar aqui do meu lado.
– Eu não quero atrapalhar.
– Atrapalha em nada. Iria atrapalhar se fosse ficar ali com sua irmã. Olha lá ela aproveitando o maridão dela.
– Melosos…
– Românticos! Você não é romântica não?
– Na verdade não sei. Nunca tentei isso.
– Vai chegar alguém que fará você se tornar uma romântica.
Nesse momento olhei fixamente para os seus olhos.
– É… Acho que já chegou, mas sem chance.
– Ei, se anima, não pensa assim.
Ficamos conversando e, surpreendentemente, me enturmei bastante com os amigos dela.
Tiramos fotos, cantamos parabéns, comemos o bolo. A Clara estava me dando atendimento VIP. Toda hora saía de perto dos seus amigos para conversar comigo. Eu, óbvio, estava adorando. Mal sabia ela que uma surpresa a esperava.
– Você não vai beber, Lú?
– Não, eu estou dirigindo então eu vou ficar no suco hoje.
– Está certa. Está gostando da festa?
– Muito! Adorei seus amigos.
– Agora são seus também.
– Pois é. Bom, eu queria entregar seu presente. Quando estiver desocupada me avise, ok?
– Ok! Adoro coisas secretas.
– Não é nada demais. É que eu fico sem jeito de dar presentes na frente das outras pessoas.
– Te entendo.
Passaram-se alguns minutos e aqueles amigos foram embora. Minha irmã já havia ido embora e eu estava conversando com o pai da Clara sobre trabalho.
– Papai, licença vou roubar sua amiga.
– Filha, fique à vontade, mas Luíza voltaremos a nos falar em outra oportunidade, ok?
– Claro! Iremos nos falar sim.
O pai dela saiu e ficamos nós duas ali conversando.
– Vamos pro meu quarto?
– Já?
– Como assim já? Você disse que tinha que me entregar o presente em particular, não disse?
– Ah, é! [Nossa, que mancada que eu dei!]. Desculpa, achei que você já iria dormir – tentei consertar a merda que havia dito.
– Não. Vamos?
– Vamos.
– Me segue.
– Ok.
Andamos por um corredor grande e lá no final, ela abriu uma porta.
Típico quarto feminino, com móveis brancos, uma parede rosa e algumas coisas adaptáveis para uma cadeirante.
– Bem-vinda ao meu cafofo. (risos)
– Cafofo. Tá aí uma palavra que há tempos não escutava. (risos)
– Eu gosto de ser “vintage”(risos). Senta aí na minha cama, aí ficamos no mesmo nível. Eu cadeirante e você de salto. Haja pescoço! (risos)
– Desculpe, não tinha pensado por esse lado.
– Tudo bem, relaxa senta aí.
– Bom, seu presente é…
– Nossa que linda sua maquiagem! Você que fez?
– Foi sim! Gostou?
– Adorei a combinação de cores. Um dia me ensina a fazer?
– Ensino.
– Bom, me fale mais do meu presente! (risos)
– Ok. Seu presente foi uma dica da minha irmã e espero que você goste.
Entreguei uma caixa na mão dela e ela abriu de imediato.
– Ai, que lindo!
– Gostou?
– Amei! Não tinha esse CD e nem o DVD. Eu sou louca com as musicas deles! Você meio que fez uma caixa com os melhores da MPB. Adorei!
– Que bom! Eu também gosto de alguns, mas tem mais presente. Olha dentro do cartão de aniversário.
– Ok, ok vamos ver. Não, não, você não fez isso!
– Na verdade eu fiz sim. Gostou?
– Imagina! Dois ingressos pra um show do Tiago Iorc daqui uma semana, eu na área vip do show com acesso ao camarim? Eu amei!
Ela estendeu seus braços, me puxou me dando um abraço forte e um beijo no rosto.
– Você fica vermelha fácil, Lú!
– Fico?
– Sim. Está vermelha pelo beijo que te dei no rosto?
– Bom, não sei. – respondi, com um baita de um sorriso amarelo.
– Esses presentes devem ter custado caro. Fico até sem jeito de aceitar.
– Por favor, não se preocupe com isso. Eu fiz de coração e se pudesse te daria até mais!
– Você é um anjo!
– Até que enfim, alguém admitiu isso! (risos) Diga isso à minha irmã e ela vai rir de você.
– Você é um anjo pra mim!
– Bom, eu estou te dando dois ingressos porque é pra você levar alguém que você goste ou esteja tendo um romance, afinal show mais tranquilo é bom pra esses momentos também!
Falei isso morrendo de raiva, afinal eu queria ir com ela, mas enfim… Acho que eu não me encaixaria nos planos dela.
– Tem razão. Obrigada pelo presente.
Nos abraçamos forte e pude sentir melhor o cheiro dela.
– Eu preciso ir. Já está tarde.
– Fique mais!
– Não, já foram quase todos embora. Está na minha hora também.
– Bom, é perigoso dirigir a essa hora também, então saiba que só por isso te libero! (risos)
Me despedi dos seus pais e do seu irmão mais novo e fui com ela até a porta de casa.
– Obrigada pela festa. Adorei sua família, amigos, tudo!
– Gostou do meu “cafofo”? (risos)
– A melhor parte da noite! (risos)
– Viva o “cafofo”!
– Viva!
Agachei-me pra dar um abraço e um beijo no rosto e fui saindo. Quando me virei, ela me puxou pelo braço.
– Lú, sobre os ingressos para o show… Você quer me acompanhar?
– Clara, eu agradeço, mas não precisa me levar só porque eu te dei o ingresso. Leve quem você gosta.
– Justamente por isso. Eu gosto de você, da sua companhia. Não estou fazendo isso porque você me deu os ingressos. Eu quero realmente ir com você. Você quer ir comigo?
– Quero!
Fiquei muda. Não saía mais nenhuma palavra. Ela estava me convidando… Era tudo o que eu queria!
– Ótimo! Agora você tem meu numero, me ligue durante a semana pra combinarmos tudo, tá bom?
– Ligo sim. Boa noite, Clara!
– Boa noite, Lú!
Eu só poderia ter sonhado! Ela me chamou para ir com ela! Uma noite só minha e dela. Era tudo que eu precisava pra tentar desvendar mais sobre ela, afinal não é porque ela me chamou pra esse show que significava que ela fosse gay, muito menos que estava afim de mim.
A semana passou até que bem rápida. Na quinta resolvi ligar para ela, combinarmos horário, essas coisas. Na primeira chamada, ela não atendeu.
Eu fiquei com medo de estar incomodando ela e preferi esperar que ela me retornasse.
No começo da tarde ela me retornou. Nem preciso mencionar que já fiquei toda boba com isso.
– Oi, Lú!
– Oi, Clara!
– Desculpa a demora em te retornar. Eu vi há pouco a ligação.
– Acontece. Como você está?
– Ansiosa por amanhã! E você?
– Eu também! Espero ser uma boa companhia pra você.
– Será sim! O show é às nove e meia. Que horas você me busca?
– Meia hora antes, pode ser?
– Faz seguinte: me busca às 20:30? É que é mais fácil de achar lugar. Eu nunca fui lá, por mais que seja área vip eu não sei se já está adaptado para uma cadeirante.
– Claro, tudo bem.
– Desculpa, é que é meio complicado essa coisa de deficiência.
– Não peça desculpas por isso. Está tudo bem, e pensando bem, é você que terá que me aguentar uma hora a mais.
– Boba! Claro. Faço isso sem problemas. Sabe falei para sua irmã que você é um anjo.
– E ela?
– Pediu pra eu parar de consumir pinga, que você não era nada disso.
– Meu Deus (risos). Ela é uma louca. Que impressão as pessoas vão ter de mim?
– Vocês duas são umas figuras!
– Deixa ela comigo! (risos)
– Bom, vou ter que desligar estão me chamando.
– Claro, vai lá. Amanhã às 20:30h na sua casa.
– Certinho. Beijos.
– Beijos.
Dormi ansiosa. O dia estava lindo e no trabalho estava tudo uma paz, coisa que é de se estranhar. Anoiteceu e fui me trocar. Como sempre demorei muito, mas achei uma roupa bacana. Estava meio frio e coloquei uma sapatilha, calça jeans vermelha e uma blusa preta mais soltinha. Como o cabelo não estava tão lindo e sedoso como num comercial de shampoo, fiz uma trança e fui buscar a Clara.
Chegando lá, fiquei esperando do lado de fora e ela veio toda linda. Ok, qual a novidade nisso, vocês devem estar se perguntando. Eu também não sou a melhor juíza nesse quesito. Não sou nada imparcial quando se trata de Clara.
Calça jeans, botas e uma blusa linda de renda. Realmente, ela estava toda sexy.
– Oi!
– Oi Clara. Você está linda!
– Sério? Obrigada! Mas olha só quem fala, não é Pedro?
Pedro, seu irmão mais novo, sorriu timidamente, mas concordou.
Fomos para o show falando sobre as músicas, como tinha sido a semana.
Chegando ao local, admito que fiquei tensa. Não sabia se daria conta de segurá-la no colo para que ela se sentasse na cadeira. Acho que ela percebeu isso e me tranquilizou. Disse que não precisaria carregá-la, pois ela tinha seus truques.
O local era bem legal e pudemos ver o show de maneira confortável.
Depois fomos até o camarim e, sim, o Tiago é tão fofo quanto as músicas dele.
Como era a primeira noite que saímos, eu sugeri irmos em um restaurante japa e, para minha sorte, ela aceitou.
Fiquei pensando em como chegar no assunto vida amorosa, sem dar muito na cara.
– Clara, você tem namorado? Ficante? Esposo? (risos)
Sutileza nunca foi meu forte. Eu assumo.
– Hum, não.
– Esse seu hum acho que é uma certa indecisão.
– Não é! É que eu estava tentando saber sua intenção com essa pergunta.
Eu gelei. Tentei rir daquilo, mas não funcionou. Pelo menos, acho que não a convenci deste fato.
– Meu Deus, como você fica vermelha fácil!
– Desculpa, eu fui bem invasiva. Não precisa responder.
– Lú! Calma. Te respondendo, não tenho nenhuma das três opções que me deu. E você?
– Também não.
– Nadinha?
– Nadinha.
– Sua irmã te disse algo da minha vida pessoal?
– Não, a Helô é bem discreta, não comentou nada. Por que?
– Ok, isso é constrangedor.
– O que é?
– Bom, não sei como você vai reagir a isso, sua irmã não sabia até essa semana. Mas é que estávamos falando da novela da Globo, aí ela até brincou disse que tinha a Clara na novela e tal, disse que era “mal” de Clara ser bonita. Aí eu mencionei que eu tinha mais em comum ainda porque eu sou gay e a Clara da novela está se apaixonando por uma mulher. O que me leva a supor que ela esteja se descobrindo bissexual.
Eu fiquei muda, ofegante. Na verdade a minha vontade era de gritar de alegria!
– Lú? Você está bem? Quer pedir a conta? Ir embora?
– Não! Que isso Clara, está tudo bem. Juro!
– Você ficou muda, me olhando com uma cara… Você é homofóbica?
– Eu? Credo! Nunca, eu só não imaginava, eu fiquei surpresa.
– Tudo bem pra você eu ser gay?
– Tudo ótimo!
– Ótimo?
– É que eu sou gay também.
– Sério?
– Uhum. Super sério.
Conversamos muito aquela noite, sobre tudo, não só sobre sexualidade, mas uma série de coisas. Eu não me lembrava da última vez que tive um papo tão agradável com alguém, o que me fez ficar mais encantada ainda com a Clara.
Levei-a para casa, ficamos conversando um pouco dentro do carro e depois saímos. Peguei sua cadeira e ajudei com o que ela precisava. Admito que estava abismada com a minha calma, afinal tinha saído com uma mulher que era linda! Ela se revelou gay pra mim no meio da noite e eu não beijei e nem tentei algo assim.
Clara era especial e acho que por querer fazer tudo dar certo eu me contive.
– Muito obrigada pela companhia, Clara.
– Foi incrível, show perfeito, comida maravilhosa. Há tempos que eu não fazia isso.
– Pela quantidade de amigos na sua festa imaginei que saía todo fim de semana.
– Não, eu amo meus amigos, a companhia deles, mas nossos gostos são coisas bem esporádicas. E eu sou mais de programas tranquilos. Já eles curtem baile funk, pagodinho, sertanejo universitário e eletrônico. Assim… Não que eu não goste! É que todo fim de semana é isso e eu não tenho esse pique.
– O que você faz num fim de semana comum?
– Estudo, vejo minhas séries prediletas. Nos domingos almoçamos aqui ou em um restaurante aqui perto, comida italiana de primeira! Você tem que experimentar!
– É só me chamar!
– Te chamo sim. Você se importa de ir com minha família?
– De modo algum. Adorei eles.
– Ótimo! Boa noite Lú e muito obrigada por tudo.
– Eu que te agradeço! Quero repetir isso mais vezes.
– Vou adorar.
Nos abraçamos e me despedi dela. Sabe aquela sensação de voltar para casa flutuando? Bem, eu estava assim. Encantada com a mulher que conheci. É tão inteligente, bem humorada, doce, forte e de uma segurança que chegava a impressionar.

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