Era uma vez – História completa

Era uma Vez, história completa. Para sua comodidade, você pode ler toda a história, sem sair desta página, navegue pelas “Tabs” que estão nomeadas com cada parte da história e boa leitura. Aguardamos os seus comentários.

Esse é mais um conto erótico no estilo, romance. Teremos cena de sexo, mas o foto dessa história é o amor entre iguais. Essa história está dividida em 7 partes. Aguardamos o comentário de vocês.
Conto erótico Era uma vez parte 1

– Te amo – disse Lea com sorriso nos olhos. Eu conseguia sentir, do fundo do meu coração, que ela estava falando a verdade, pois eu sentia o mesmo por ela.

– Também te amo – disse tentando retribuir o amor e continuei – Estou com medo de não ser boa o suficiente pra você.

– Meu amor, fique tranquila – sua voz me acalmava, ela poderia dizer qualquer coisa – Eu prometo que se em algum momento você pedir pra parar, eu paro.

– Eu não vou pedir. Te amo. Eu quero perder minha virgindade com você, Lea.

– Tem certeza, Ally? – seu interesse em ter certeza sobre a minha decisão só me deixava mais segura. Ela, com certeza, era a mulher certa.

– Absoluta, Lea! Só te peço: tenha paciência comigo, ok?

– Ok, meu amor.

Essa foi a conversa de ontem, eu sou a garota mais sortuda do mundo, minha namorada é incrível, me respeitou tanto e me fez sentir o real significado da palavra mulher.
Meu nome é Allyson, mas podem me chamar de Ally. Moro em Miami com minha família, tenho 17 anos, sou alta, cabelos castanhos e olhos azuis. Ainda estudo e tenho um sonho, viver de música… Amo cantar.

Lea é canadense, a conheci em um intercâmbio, ficamos amigas e, da amizade, surgiu o amor.

Ela trabalhava em uma livraria perto da escola, e toda vez que eu a via, um sorriso surgia no meu rosto e minhas bochechas coravam.

Lea tem 22 anos, cabelos curtos e loiros, pele bronzeada e os olhos verdes, são os olhos mais lindos que já vi.

A princípio foi complicado, sempre soube que era gay, mas nunca me aceitei. Acho que por meus pais também serem homofóbicos. Eles sabem do meu namoro com a Lea, só que fingem não saber. Eu mesma contei a eles e aos meus irmãos.

Meus irmãos são muito compreensíveis e gostam da Lea, quando ela foi embora pro Canadá, achei que não daríamos mais certo, mas tudo deu certo.

Então posso dizer que sou uma gay dentro do armário para a sociedade, e fora dela para meus pais e irmãos.

Eu confesso que eu também não sou um ser tão legal, já que eu também sou homofóbica. Não ando de mãos dadas com Lea, não faço carinhos em público e sempre estou tensa pensando o que as pessoas pensariam de mim.

Amanhã será um dia especial, irei a um concurso de novos talentos musicais e é um concurso bem visado aqui nos EUA, com jurados famosos e transmissão mundial, fora o prêmio de um contrato de 50 milhões de dólares. Eles querem transformar o vencedor em uma estrela mundial.
Lea me dá todo o apoio do mundo, realmente, ela é mais do que eu acho merecer.

– Bom dia, meu amor! – disse tentando parecer animada.

– Bom dia, futura estrela Ally! (risos) Como está se sentindo, preparada pra deixar os jurados e o público aos teus pés?

– Você está me deixando nervosa, eu não sei se vou conseguir…

– Eu aposto que sim! Fiz um café reforçado pra você, coma direitinho. Já, já sua família passará aqui para te buscar – disse Lea.

– Sinto muito por não poder ficar mais tempo com você – me desculpei.

– Tudo bem, seus pais estão começando a acreditar que nós não somos só um “capricho”, que aqui existe amor de verdade – Lea tinha razão, as coisas estavam indo melhor do que nunca e meus pais parecia finalmente acreditar em nosso amor.

– Muito, amor! Que horas é seu voo?

– Daqui umas três horas, me mande notícias suas assim que puder, ok?

– Ok, amor!

– Ei, antes de você ir, eu comprei uma coisa pra você.

– Amor! – Lea e as suas surpresas, não é a toa que eu amo essa mulher.

– É simples, mas é uma forma de estar sempre perto de você e fazer você se sentir perto de mim.

Quando abri a caixinha, era um colar com um círculo com um furo no meio, e em volta atrás do círculo estava escrito: “Você é o meu era uma vez…’’ – L

– Você é incrível! – E, mais uma vez, ela me deixou sem palavras.

– Eu te amo e sempre vou te amar!

– Eu prometo nunca tirar esse colar! Eu prometo estar sempre com você.

Entrei no carro dos meus pais, com um aperto imenso no coração, não sabia se era pelo nervosismo das audições ou porque tudo que eu queria era ter a Lea ali perto de mim.
Depois de horas e horas de espera, eu fiz o teste… Eram 5 jurados, os “mestres” do mercado musical, e eu passei!

A primeira pessoa para quem eu liguei, claro, foi a Lea. Ela ficou extremamente feliz. Eu fui aprovada em várias fazes, até que fui dispensada, fracassei… E em meio a choros, uma luz no fim do túnel, os jurados resolveram montar grupos com os candidatos excluídos.

Meu grupo é legal, são quatro meninas e eu. A Clara de 16 anos, Dina de 15, Eva de 19 e Nora de 16. Tínhamos gostos parecidos, e foi, de certo modo, fácil o entrosamento, nos tornamos amigas-irmãs.

A correria da competição me fazia ficar mais ausente na vida de Lea e as ligações a noite que antes duravam horas e horas, passou a se resumir em minutos.

Lea sempre foi tão compreensiva, acho que esse tipo de atitude vale mais do que um “eu te amo”. Apoio incondicional.

Chegamos na final e eu mal podia acreditar, já tínhamos fanpages em redes sociais, nossa vida estava uma loucura, mas uma loucura boa! Era o nosso sonho, viver de música.

Antes de entrar no palco, eu mandei uma mensagem para Lea e, pra minha surpresa, ela me mandou uma foto, sentada em um local cheio de gente, foi ai que percebi que ela estava na plateia! Ela comprou ingresso pra me ver na final? Realmente, Lea é a pessoa mais fofa que eu conheço.

O programa foi pura tensão, nervosismo à flor da pele. Quatro oponentes incríveis, mas ganhamos! Acho que naquela noite eu chorei mais do que uma vida inteira. Bom, pelo menos era choro de alegria de vitória. Saberíamos que aquilo era só o começo de um desafio imenso. Mas coragem e cumplicidade não faltavam pra mim e nem para as meninas.

Consegui ficar conversando com Lea alguns minutos nos bastidores assim que o programa acabou. Iria ter uma festa na casa do nosso mentor, e ela não poderia ir, foi algo embaraçoso,
mas ela entendeu.

Nós do grupo tiramos algumas semanas de férias, afinal cada uma vinha de uma parte do país e sentíamos saudades de casa.

Foi assim que aproveitei meus amigos, minha família e Lea, que pegou o avião mais uma vez para podermos passar um tempo juntas.

Dessa vez, ela estava mais triste por problemas de saúde com o pai dela. Vê-la assim me cortava o coração. Tivemos momentos de choro, momentos de intenso amor… Você já se sentiu transbordando de amor? Lea me tratava com tanto cuidado, e, ao mesmo tempo, deixava tão claro quando estávamos nos amando… Sua paixão, seu tesão por mim… Eu me sentia viva, amada e muito desejada.

Saímos um pouco, fomos tomar sorvete, passear pela calçada.

– Feliz por você estar aqui comigo, Lea.

– Eu também, Ally, posso dar um abraço na super estrela?

– Para! (risos) Você pode sim dar um abraço na sua NAMORADA. Eu quero que saiba que, pra você, eu não sou a Ally do grupo. Pra você, eu sempre vou ser aquela Ally desajeitada que começou a comprar livros e mais livros só pra ter um motivo para ver a moça de olhos verdes de cabelo legal. Eu sempre vou ser aquela menina que tremeu toda e até gaguejou quando você pediu meu telefone (risos).

– Aquele momento foi fofo… Ally, me prometa uma coisa… Que sempre vai ser humilde e pé no chão, independentemente dos fascínios que essa carreira possa te trazer. Eu te amo, quero te ver bem, feliz e preparada pra qualquer tipo de situação. Essa carreira é muito instável, meu amor. Eu sei que você é uma excelente cantora. Você e as meninas cantam muito! Mas entende o que eu quero te dizer?

– Entendo e prometo, meu amor.

No dia seguinte quando acordei, meu irmão Kevin começou a me irritar com perguntas que pra mim não faziam sentido, talvez por estar sonolenta.
– E, aí, maninha? O abraço da Lea é tão gostoso assim pra demorar mais de dez minutos em um único abraço?
– Quê?
– É o que diz aqui no site: “Integrante do grupo Girls é vista abraçando uma loira desconhecida, as duas estavam em clima de pura felicidade, e se abraçaram por mais de dez minutos! Será que a cantora Ally é gay?”
Meu mundo caiu, eu peguei o tablete das mãos de Kevin e fiquei relendo aquilo e vendo a foto, eu não acreditava naquilo, eu fiquei furiosa, ameacei processar o site, mas meus pais
se mostraram compreensivos.
– Calma, Ally, tome seu café e deixe isso pra lá – disse meu pai todo tranquilo.
– Acalmar? Pai! As pessoas não podem saber que eu sou gay!
– Por quê não?
– Eu não quero ficar taxada como a cantora gay, eu quero que as pessoas me vejam como uma boa cantora! Não sei se isso ajudaria no marketing, e, pelo amor de Deus, isso é horrível eu nem vi esse cara ou mulher batendo essas fotos!
– Paparazzi, minha filha, e enfim você e a Lea estão a quanto tempo juntas?
– Um ano e oito meses de namoro.
– Certo, você fez eu e sua mãe aceitarmos isso, que até então era incomum para nossa família. Acho que você deve contar para suas colegas de grupo e para os agentes e ver como você vai proceder sobre isso.
– Eu não posso contar isso… Eu preciso ir.
Peguei o carro e sai em direção ao hotel onde Lea sempre se hospedava. Subi as escadas e bati na porta com urgência.
– Quem é?
– Sou eu! Ally!
– Só um minuto, amor.
– Ok.
Quando ela abriu a porta, despejei as palavras como se fosse uma cachoeira.
– Seu celular está aonde?
– Bom dia pra você também, dona Ally! Está aqui, o que foi?
– Olha isso, leia isso em voz alta, por favor, Lea!
– Ok… “Integrante do grupo Girls é vista abraçando uma loira desconhecida, as duas estavam em clima de pura felicidade, e se abraçaram por mais de dez minutos! Será que a cantora Ally é gay?” Bom, eu ia fazer piadas, mas pelo seu humor é melhor eu nem começar.
– Não mesmo!
– O que você está pensando em fazer?
Essa pergunta me matou. Matou porque no fundo, por mais que eu a amasse, eu estava surtando de medo, de ser taxada como gay. Sim, eu sou uma gay e tenho preconceito comigo mesma. Desabei nos braços dela.
– Calma, respir,a meu amor, eu estou aqui… Eu sempre vou estar, você quer tomar uma água?
Ally, acalme-se, uma hora ou outra iriam saber que você é gay, iriam saber de nós!
– Eu não sou gay!
– Calma, amor…
– Eu não sei o porquê de ter essa coisa chata de ter que se classificar, de classificar sua sexualidade, ridículo!
– Ok, acho que eu estou começando a entender o que exatamente você veio fazer aqui.
– Lea…
– Me escuta, não demore muito nas palavras, não dê voltas, faça o que você acha que tem que ser feito.
– Eu te amo… Mas…
– Sem eu te amo, por favor, Ally.
– A gente precisa terminar por aqui.
O silêncio tomou conta daquele apartamento. Era possível ouvir meus soluços e a respiração da Lea.
– É isso que você quer, Ally?
– É o que eu preciso fazer… Olha pra mim, Lea.
– Não quero. Por favor, quando sair bata a porta.
– Deixa eu te beijar pela última vez…
– Você não é gay, Ally, sendo assim não pode beijar outra mulher… Tenha uma boa vida, eu vou pro banheiro lavar o rosto. Quando sair, feche a porta.
Parecia que tinham arrancado meus órgãos vitais, eu não conseguia respirar, só chorar e chorar. Sai daquele apartamento sabendo que cometia a maior burrada da minha vida, mas, ao mesmo tempo, por uma idiotice, eu achava aquilo necessário.
E nunca mais tive notícias da Lea. Depois de quase um ano, liguei, mas deu número inexistente.
O grupo foi algumas vezes ao Canadá e eu fui ao endereço que Lea tinha me dado, mas chegando lá um dos vizinhos disse que o pai da Lea tinha falecido, e que, depois disso, ela e a mãe venderam o imóvel e ninguém sabe para onde elas foram.
Procurei em todas as redes sociais, mas não obtive sucesso.
Lea desapareceu, e comigo ficou somente a visão dos olhos dela olhando para mim, ficou o cheiro da sua pele e o colar, no qual eu nunca tirei.

Anos se passaram e eu não era mais a garotinha de 17 anos, já estava com 26. O grupo estava indo super bem, éramos sucesso onde passávamos, fãs incríveis e devotados, reconhecimento de público e crítica, Grammys, VMA, VMB e muitos outros prêmios bons nosso grupo já tinha. E não era só um exemplar de cada… Não mesmo.

Estar em um patamar tão alto é complicado: quanto maior o nível, maior o tombo. Por isso eu e as garotas trabalhávamos duro, virávamos noites trabalhando, estar com os grandes da música como Beyoncé, Justin Timberlake, Demi Lovato, Fifth Harmony, Adele, Bom Jovi, Nico e Viniz, Ricky Martin e um grupo incrível de artistas que vendiam álbuns e eram bem sucedidos era bem louco.

Como diz a Clara, nós nunca vamos nos acostumar a olhar pro lado e ver que estamos sentadas entre Madonna e Beyoncé em uma ou outra premiação.

Me mudei para Los Angeles, onde compramos uma casa. Digo “compramos” porque nós cinco resolvemos morar juntas, assim não ficávamos sozinhas.

Nossa vida pessoal não era muito agitada, nunca fomos artistas de escândalos e nós cinco continuávamos solteiras. Any namorou durante três anos, mas o cara estragou tudo e, desde então, somos cinco solteiras e não quatro.

A imprensa ainda especula minha sexualidade, afinal, nesse tempo todo de banda, eu nunca fui vista com nenhum homem, e todas já tiveram seus namorados e eu ainda não, e nem terei.

Não vou mentir, tive sim meus casinhos com algumas mulheres, mas nada que me preenchesse, nada que fizesse meu coração sentir nem que seja um por cento do que eu sentia quando Lea me abraçava.

Tudo era muito físico, sexo, beijos… Eu nunca pude dizer que fiz amor com “fulana”, porque fazer amor, AMOR, eu só fiz com a Lea.

Nossa vida era sempre exposta em fofocas super construtivas como: “Ally vai ao salão e sai com o cabelo preto”. Provavelmente, a vida de vocês deve ter mudado muito com essa notícia de imprensa marrom.

Mas tirando os fotógrafos e a imprensa, éramos artistas que conseguíamos ir a supermercados, shopping sem segurança!

Sempre fomos muito acessíveis, se alguém quisesse tirar foto, ou conversar um pouco… Bom, por que não? Afinal, temos consciência de que se estamos aonde estamos é porque temos fãs carinhosos, e o mínimo que podemos fazer é ser acessível.

Resolvi ir a uma lojinha, que é como um supermercado só que menor. Lá eles vendem produtos não americanos, tipo comida brasileira, ingredientes não comuns da culinária americana. Eu amo brigadeiro! Chegando no supermercado, fui analisando prateleira por prateleira e fui enchendo o meu carrinho.

Quando virei para a próxima sessão, bati de frente com o carro de compras de outra pessoa, e quando eu olhei, eu virei pedra, endureci: era a Lea, a minha Lea!

– Lea?

– Ally…

– Meu Deus! Eu não, não acredito nisso.

– Nem eu.

– Como você está?

– Bem e você?

– Estou bem sim.

– E sua mãe? Eu fui pro Canadá, tentei te achar nos intervalos da turnê, mas os vizinhos me contaram que seu pai morreu e que não sabiam pra onde vocês tinham se mudado.

– É, nos mudamos para Washington e depois que minha mãe faleceu, ha quase dois anos, eu arrumei um emprego em um escritório de advocacia e eles me transferiram pra cá.

– Sinto muito pela sua mãe, ela era uma ótima pessoa. Ela e seu pai sempre me trataram tão bem!

– É, eu tive bons pais… Seu cabelo ficou bom, gostei da cor.

– Obrigada! Bom, o seu não está dando pra ver pelo gorro, mas eu sei que você tem o cabelo lindo!

– É, eu tinha um cabelo bonito, mas já, já eu me recomponho.

– Como assim “tinha”?

– Ele está curto, está crescendo aos poucos eu tive câncer e tive que fazer quimioterapia, assim eu perdi meus cabelos.

– Nossa, eu sinto muito! Meu Deus… Você está bem?

– Sim. Já faz uns 5 meses que eu operei, cirurgia com sucesso… Bom, mas não pense que minha vida teve só desgraça (risos)! Tenho um emprego bom! E uma filha linda…

– Você adotou?

– Sim, minha cachorrinha, se chama Frida.

– Você sempre quis ter um cachorro…

– Verdade. Bom, foi bom te ver pessoalmente. Só te via na TV, outdoors, revistas… Gosto muito do seu trabalho, do grupo em si. Vocês estão de parabéns.

– Obrigada!

– Tchau.

– Lea…

– Sim.

– Fique com esse papel, tem meu telefone aqui, seria bom te ver de novo.

– Ok. Tenha um bom dia, Ally.

Ver Lea tão forte e, ao mesmo tempo, tão fraca, tão real na minha frente… Aquele sorriso mágico que me fazia tremer ainda estava ali apesar de toda a dor.

Voltei pra casa chorando, chorando como no dia em que terminei com ela.
Entrei correndo em casa e fui pro quarto, Clara, Eva, Norma e Dina foram atrás de mim preocupadas.

– O que houve, Ally? Por que você está chorando? – perguntou Eva, a mais velha de todas, também a mais doce, mais carinhosa e sempre se mostrando pronta pra ajudar a todas as outras e proteger a gente de qualquer coisa.

– Eu sou um monstro! Eu sou a pessoa mais burra do mundo!

– O que você fez, Ally? – perguntou Norma. Ela e a Clara são a dupla dinâmica, são extremamente palhaças, fazem pegadinhas nas turnês, o jeito como elas agem em todo o lugar… Eu nunca as vi falando sério… Não até aquele momento.

– Eu estraguei minha vida, eu abandonei meu amor, ela sofreu tanto esses últimos anos e ela não tinha ninguém pra cuidar dela! Eu sou uma imbecil!

– Gente, vamos fazer o seguinte: só eu faço as perguntas aqui. Sabemos muito bem que quando nós cinco resolvemos falar juntas, não dá certo – disse Eva organizando a bagunça. Sentando ao meu lado, ela continuou – Ally, de quem você está falando?

– Da Lea, ela foi minha namorada. Eu a conheci quando eu tinha 15 anos e me apaixonei. Nós enfrentamos os meus pais que com o tempo aceitaram, mas, ao mesmo tempo, eu me escondia da sociedade, eu sempre me escondi! Ela sempre esteve do meu lado! Ela sempre foi tão compreensiva e amorosa… Mesmo quando o intercâmbio dela acabou, ela sempre trabalhou dia e noite pra poder vir me ver! Ela me deu o presente mais incrível do mundo… Seu amor, seu coração e eu destruí tudo! Clara, abre essa gaveta, você vai ver uma caixinha azul. Me dá ela, por favor. – Clara me entregou a caixinha – Esse aqui é o colar que ela me deu antes de eu ir pra audição.

– O que está escrito aqui atrás do círculo? – perguntou Eva.

– “Você é o meu era uma vez…’’ – L . A letra L é de Lea. Nosso amor era perfeito! E eu estraguei tudo! Ela passou por tanta coisa sozinha, ela não tinha ninguém além dos pais. O pai morreu, a mãe morreu e eu não estava lá para dizer que tudo ficaria bem! Ela descobriu um câncer, enfrentou quimioterapias e eu não estava lá pra cuidar dela, caso ela passasse mal! Eu não estava lá pra ficar com ela depois da cirurgia.

Aos poucos contei toda a história para as meninas, e algumas me chamaram de burra pelo o que eu fiz e, na verdade, bom, eu sei que sim, eu sou burra.

O que mais me impressionou foi o fato delas não terem me julgado por ser gay, pelo contrário, me apoiaram bastante e disse que me ajudariam a consertar as coisas com a Lea, desde que eu não apenas estivesse sentindo culpa ou pena, mas sim amor.

Esperei por dias, semanas ela me ligar e nada… No fundo, eu entendia ela estar “arisca”, afinal, eu a fiz sofrer.

Aquele colar saiu da caixinha e voltou para onde nunca deveria ter saído, voltei a usá-lo na esperança de algum telefonema… Que nunca aconteceu.

Passaram-se meses. Voltei naquele supermercado várias vezes, mas não dei a sorte de encontrá-la.
Um dia estava tocando piano na sala de música e escutei a voz da Dina me gritando. Fui correndo.
– O que foi, Dina?
– Eu consegui!
– O qu?
– Senta aí, gente, que a gênia aqui vai falar!
– Fala logo.
– Você disse que encontrou Lea no supermercado. Esses pequenos supermercados com produtos especiais são obrigados a fazer ficha de cadastro de cada cliente! Eu fui até esse supermercado, joguei um papo com os funcionários… Dei uns ingressos para nossos shows… E tive acesso ao banco de cadastros e foi lá que achei… Lea Monteigh!
– Jura?
– Jurado! E imprimi a folha! Aqui tem tudo: telefone, endereço residencial e dados pessoais como documentos, e-mail e uma porrada de coisa!
– Dina, eu te amo!!
– É, fica me devendo essa, ok?
– Ok! Mas eu não sei como chegar nela… Seria meio estranho dizer que você roubou os dados dela, subornando com ingressos pro show.
– Bom, é só fazer disso um encontro casual… Como foi o de vocês no supermercado!
– Eu não sei se eu gostaria de começar já mentindo ou omitindo algo…
– Bom, então vá a casa dela, convide-se pra entrar, converse um pouco, tente mostrar mais que você a quer por perto… Assim ela não vai te achar tão louca por aparecer do nada.
– Boa ideia! Assim que passar essa maratona de gravação, eu vou até ela! Esse tempo será bom pra que eu vá me preparando também.
Semanas se passaram e resolvi no sábado de manhã ir até a casa de Lea, era um pouco longe de onde eu morava. Achei o prédio e fui entrando, procurando pelo apartamento 501.
Toquei a campainha e esperei até que escutei o barulho das trancas se desfazendo atrás da porta.
– Ally?
– Oi… Posso entrar?
– Pode… Como me achou?
– Ok, isso é embaraçoso, mas Dina subornou com ingressos os funcionários daquele mercado, teve acesso ao banco de cadastro e, bom, foi assim que eu te achei.
– Hum…
– Cadê a Frida?
– Só um minuto, vou buscá-la.
Fiquei olhando o apartamento, pequeno, mas muito bem arrumado, procurando vestígios de algo que ela gostasse pra eu puxar papo.
– Ally, essa é a Frida.
– Ah, meu Deus, que coisa linda! Ela é muito fofa!
– É sim.
– Posso ficar com ela no colo?
– Claro!
– Por que não me ligou?
– Honestamente falando?
– É.
– Eu fiquei com medo, te ver na minha frente foi algo… Estranho.
– Está sendo estranho agora?
– Um pouco, ainda mais por você continuar em pé. Sente-se. Não é nenhuma cadeira de luxo, digna de uma super estrela…
– Eu não ligo com essas coisas.
– Quer café?
– Quero.
– Seu apartamento é bem decorado.
– Acha?
– Sim.
– Obrigada.
– Isso é desagradável, mas eu sou curiosa, então me perdoe a indelicadeza. Você teve câncer aonde?
– Ovário, mas estou bem.
– Graças a Deus, seu cabelo já está Chanel, está lindo. E também amei sua estante cheia de cds e dvds… Você sempre amou música.
– Me relaxa bastante.
– Posso ver?
– Pode.
Olhando a estante completa de cds e dvds, encontrei uma parte bem no fundo da estante, com alguns cd’s e dvd’s do grupo.
– Fico feliz de você ter cd’s do grupo.
– Eu aprecio o trabalho de vocês.
– Tem um autografado, como conseguiu?
– Minha colega de trabalho foi em um show de vocês, e lá ela conseguiu autógrafos de algumas de vocês.
– E está faltando o meu… Tem uma caneta?
– Você vai me dar um autógrafo?
– Sim! Se você quiser.
– Eu quero sim.
Assinei o cd com uma dedicatória e resolvi ir, já estava na hora.
– Ally, esse é meu cartão, fique com ele.
– Ótimo! Espero não ter te aborrecido por vir sem avisar.
– Tudo bem, não fiquei brava, apenas surpresa.
– Eu não vou tomar muito o seu tempo, eu só quero que saiba que eu gostaria muito de sair com você, pra conversamos um pouco… Eu sei que o que fiz no passado foi terrível e, acredite, não teve um dia em que eu não pensasse em você. Eu senti e sinto muito pelo rumo que eu dei pra aquilo que tínhamos… Dentro de mim, tem um buraco enorme, que é do seu tamanho… E eu não sou feliz. Minha carreira, meus fãs, as meninas, minha família… Eu tenho fama, eu tenho dinheiro, mas ainda falta… Algo. Algo que eu perdi quando te arranquei da minha vida. Eu sei que eu não posso chegar aqui e mudar o passado, mas eu gostaria muito, Lea, de ter uma chance pro futuro. As meninas querem muito te conhecer! Elas são muito engraçadas… Posso te ligar pra marcarmos algo?
– Claro. Você me liga?
– Claro! Bom, eu preciso ir… Até mais, Lea.
– Até.
Sai da casa de Lea e parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim, por mais que ela tenha me tratado bem. Eu sinto que quando eu a vejo, um imã me puxa pra ela e o que eu mais queria era abraçar, beijar, sentir ela.
Uma semana se passou e eu e as meninas resolvemos fazer algo em casa, curtir o sábado na piscina, jogar video game, algo parecido com a festa do pijama.
Resolvi ligar pra Lea, chamar ela e sua cachorrinha Frida. No começo, ela não quis aceitar o convite, mas Clara pegou meu telefone e a convenceu.
Eu estava prestes a surtar! Lea estaria na minha casa em menos de 30 minutos! Andei pela casa inteira… Parecia uma barata tonta.
Até que ela chegou. As meninas foram recebê-la. É, eu sei, isso é estranho! Por que eu não fui?
Porque eu não tinha pernas pra ir até lá.
Fiquei esperando no hall de entrada. Lea estava linda, de shortinho branco com uma blusa azul marinho, cabelos soltos e um sorriso que há muito tempo eu não via.
Sabia que esse sorriso não era por mim e nem pra mim… Era porque as meninas estavam brincando com ela de um jeito tão palhaço que era impossível não rir.
Até que ela estendeu a mão e me cumprimentou.

– Oi, Ally. Obrigada pelo convite.
– Oi. Lea! Eu fico muito feliz que tenha vindo.
– Bela casa a sua.
– Obrigada. As meninas que escolheram a casa, eu apenas concordei.
– Entendo.
Do nada, Dina nos interrompeu.

– ALLY!!! Eu e as meninas vamos numa loja, comprar… Comprar…
– Biquínis! – disse Clara, completando a frase.
– Mas, meninas, vocês já têm muitos biquínis! – Disse eu não entendendo a estratégia delas.
Sim, aquilo era uma desculpa esfarrapada para me deixar sozinha com a Lea.
– Não, não temos não! Olha, Lea, nós já voltamos! É coisa de uma horinha… Temos o dia todo pra nos divertir, então fica à vontade… A Ally vai mostrar a casa, e, enfim, fiquem bem à vontade, ok?
– Ok… – disse, Lea que, neste momento, parecia um tomate de tão vermelho o rosto.
E lá se foram as palhaças fingindo comprar biquíni.
– Desculpa, Lea, eu não pedi pra elas nos deixarem sozinhas…
– Eu sei que não. Elas acham que eu fui sua amiga?
– Não… Eu contei pra elas que você foi minha namorada.
– E elas estão bem? Sem desconforto algum?
– E por que estariam?
– Sei lá, quando… Aquele dia que acabou, achei que sua atitude era porque elas eram homofóbicas e não iriam te aceitar no grupo.
– Não, a homofóbica na época era eu, uma idiota, eu sei.
– Não te achei idiota…
– Deveria.
– Não tenho o direito de julgar ninguém… Cada um sabe o que leva no coração.
– De quem se leva no coração também… Mas, enfim, quer conhecer a casa?
– Quero sim!
– Me siga então! Começaremos um tour! (risos)
– Ok! (risos)

Depois de um tempo, fui pra casa de Lea. Chegando lá, Frida, sua cachorrinha, ficou brincando comigo enquanto ela pegava os talheres para cortar o bolo.
– Antes de cortar tem que fazer um pedido, Lea!
– É verdade, bem lembrado (risos).
Foi uma noite agradável. Rimos muito, comemos bolo de chocolate com champanhe, até que eu apaguei no sofá da sala.
Acordei com alguém mexendo no meu corpo. Vi que era a Lea que estava me carregando no colo, preferi fingir que ainda dormia (risos) e escutei ela falando comigo.
– Não vou deixar você dormindo no sofá, até parece que voltamos no tempo… Allyson, por que você me jogou da sua vida? Eu ainda… Chega, Lea, você está falando sozinha.
A minha vontade era de parar de fingimento e beijar ela ali, mas não podia, ela ficaria brava em saber que eu acordei e fingi dormir.
Acordei no dia seguinte radiante! Nem quando eu ganhei meu primeiro Grammy eu acordei tão feliz.
Fui procurando Lea pela casa, até que a encontrei dormindo no sofá. Resolvi preparar um café da manhã e depois acorda-la.
– Lea… Lea, acorde.
– Bom dia, Ally.
– Como eu cheguei até sua cama?
– Ah, eu te coloquei lá.
– Sua cama é de casal, então por que não dormiu lá? Tem espaço.
– Bom, primeiro que eu queria que você acordasse e tivesse uma visão agradável e não minha cara amassada e com um pouco de ressaca devido a bebida (riso). Segundo que eu já estive no seu quarto e a minha cama de casal é a metade da sua cama… Então pensei que você precisaria de espaço para estar confortável.
– Você ainda gosta de panquecas?
– Sim, por quê?
– Porque eu fiz panquecas! Do jeito que você gosta! Ou gostava.
– Sério? Vou lavar o rosto e já vou pra cozinha.
Fiquei mais um tempo com Lea e depois voltei pra casa. É claro que as meninas estavam já me esperando pra um interrogatório. Eu não tinha muita coisa a falar, nem um beijo, muito menos uma noite tórrida de amor. Mas, mesmo assim, eu parecia uma criança voltando da Disney.
Durante toda a semana trocava mensagens com Lea, era um bom sinal.
Estávamos divulgando uma nova música e por isso ficamos alguns dias dando entrevistas pra diversos repórtes de diversas partes do mundo, o que era bem legal.
Fiquei sabendo que o Steve, um dos repórteres, iria nos entrevistar… Steve é incrível, super bem humorado, sempre trazia perguntas de fãs e, bom, pensei que se ele perguntasse algo sobre relacionamentos, paixonites ou preferências, já estava na hora de me assumir.
Não vou mentir, estava com medo de como aquilo repercutiria, mas eu precisava tirar esse peso das minhas costas e, ao mesmo tempo, deixar bem claro pra Lea que eu estava bem comigo mesma e que eu me aceitava gay.
E a entrevista começou:
Steve: Olá, meninas! Parabéns por mais esse single incrível! Eu amei!
Nora: Obrigada, Steve! Estávamos com saudades de você! (risos).
Steve: Temos cinco perguntas dos fãs! Vamos fazer o seguinte: cada uma dá sua opinião, ok? Respostas individuais. Qual foi o cover predileto que vocês fizeram?
Clara: Red da Taylor Swift
Nora: Independent Woman da Beyoncé.
Eva: Not a Bad Thing do Justin Timberlake.
Dina: All of Me do John Legend.
Ally: Rude da banda Magic.
Steve: Quem está solteira, levante a mão.
Todas nós levantamos a mão.
Steve: O que vocês gostam de fazer nas horas livres, se é que vocês tem! (risos).
Clara: Comer besteira.
Nora: Tirar o atraso dos seriados que eu acompanho.
Eva: Jogar vídeo game.
Dina: Dormir… Dormir muito.
Ally: Ler, eu amo livros.
Steve: Ok, já foram três perguntas vamos pra quarta, o que mais chama atenção em um homem?
Clara: Humor. Curto caras bem humorados.
Steve: Fisicamente também!
Clara: Haa… Fisicamente… Eu gosto de caras da minha altura, ou seja, baixinhos.
Nora: Atitude. Isso me chama atenção e eu gosto de caras sarados (risos).
Eva: Homens com um romantismo vintage e altos. Acho lindo homem alto.
Dina: Gosto de homens que tenham mais atitude e fisicamente sarados… Eu e Nora temos gostos parecidos! (risos).
Era minha chance de dizer claramente que eu era gay, então respirei fundo e tentei tratar aquilo com naturalidade, como se todo mundo já soubesse.
Ally: Fisicamente… Bom, fisicamente dizendo, eu prefiro mulheres. Até por ser gay, eu não prefiro homens! Posso adaptar a pergunta, Steve?
Steve ficou branco. Ele era gay assumido e sabia que eu era gay… Até porque já fiquei com uma amiga dele há uns anos. Ele só balançou a cabeça enquanto as meninas olhavam pra mim com uma cara de “até que enfim”! E eu continuei falando.
Ally: Adaptando a pergunta (risos), eu acho lindo a boca e as pernas de uma mulher. E o que mais me chama a atenção também é a postura, como aquela pessoa trata os outros, e romantismo. Eu gosto de mulheres românticas.
Steve: Homens… E mulheres. Espero que tenham anotado as dicas (risos). Última pergunta, essa é clássica… Mas é sempre bom perguntar pra vocês, porque há sempre algo novo. Qual foi o maior mico ‘‘recente’’ que vocês já pagaram?
Clara: Escorreguei na entrada do hotel e só não cai porque a Eva estava atrás e me segurou.
Nora: Eu desafinei em uma apresentação acústica, há umas duas semanas, virou top vídeo do YouTube. Eu não ligo, vi umas 50 vezes e morro de rir.
Eva: Tem uma escada no nosso palco e eu caí dela.
Dina : Esqueci a letra justo na minha parte… Foi terrível (risos).
Ally: Tem uma parte em que nós dançamos mais perto do público e depois voltamos pra escada. Eu esqueci que tinha que voltar e fui pra escada, quando olhei pra frente as meninas todas lá e eu sozinha… Segurei tudo no “carão” e continuei a coreografia esperando elas.
Steve: Meninas, muito obrigado pela entrevista! Bom ver vocês! Quer imagens? Conteúdo exclusivo? É só clicar no link abaixo! Beijo!
A câmera desligou e todo mundo ficou tipo, “Ally, você tem noção que você acaba de sair do armário?”. Era engraçado a cara das meninas, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de eu não estar em pânico, apenas leve, feliz.
Quando peguei o celular tinha uma mensagem da Lea dizendo que precisava falar comigo. Liguei de imediato pra ela que me atendeu. Ela estava chorando muito.
– Ally, desculpa te atrapalhar.
– Não me atrapalha nunca! Por que você está chorando?
– A Frida…
– O que tem a Frida?
– A diarista deixou a porta aberta, a Frida saiu e foi atropelada… O motorista não fugiu da responsabilidade, todo mundo sabe que a Frida é minha, me chamaram correndo. Eu estou com ela aqui no hospital veterinário, o médico disse que ela não tem chances de sobreviver, pois machucou muito ela.
– Lea, eu sinto muito. Em que hospital você está? Aquele perto da sua casa? Um pintado de azul?
– É.
– Eu tenho mais duas entrevistas curtas pra dar, e vou sair correndo te encontrar, ok?
– Não precisa, não quero te atrapalhar.
– Querida! Você não me atrapalha, somos amigas, não somos?
– Sim.
– Me espera, ok?
– Ok.
Pra minha sorte, as entrevistas foram bem mais rápidas. Saí do hotel pelos fundos em um táxi e fui encontrar com Lea.
Chegando no hospital veterinário, lá estava ela de cabeça baixa, chorando em um canto.
Fui correndo até ela para abraça-la. Quando me viu, Lea parecia uma criança indefesa. Ficamos em silêncio, até ela me dizer que a Frida tinha morrido há uns cinco minutos. Foi inevitável, comecei a chorar junto com ela, sentia seu corpo tremendo de tanto soluçar.
Não havia mais nada a ser feito, então peguei o carro de Lea e fui dirigindo pra ela até chegar na sua casa.
Entramos, e fui fazer um chá enquanto ela não parava de chorar na sala. Me sentei ao seu lado enquanto ela tomava chá, fiquei fazendo carinho no cabelo dela.
– Eu não entendo o que eu tenho, Ally, eu sempre perco as pessoas que eu amo.
– A vida é injusta mesmo, Lea. Olha pra mim… Eu jamais vou deixar você. Jamais, ouviu bem?
– Não quero que você tenha pena de mim, Ally.
– Pena? Não! Eu tenho é amor por você.
Ficamos em silêncio uma olhando pra outra.
– Ally, eu…
– Não precisa me dizer nada, eu só quero que você saiba mais uma vez, que eu vou lutar pelo que eu sinto por você, que não é culpa, não é pena ou outra desculpa… É amor, eu quero que você se abra pra conhecer uma nova Ally, uma Ally mais madura, mais centrada… Menos homofóbica e preocupada com o que os outros vão pensar. Daquela Ally só sobrou o meu lado criança e meu amor por você. Talvez esse não seja o momento, sua cabeça está a mil, mas eu te peço, pensa com carinho.
Ficamos em silêncio e ela me abraçou, um abraço forte e demorado. Me inclinei e coloquei sua cabeça perto do meu peito, fiquei fazendo carinho, cafuné até ela se acalmar. Me sentia no paraíso.
– Gostei da sua roupa – disse ela quebrando o clima triste.
– Obrigada, estávamos todas produzidas. Eu gosto muito desse tipo de vestido.
– Está linda. Se importa se eu ligar a televisão?
– Claro que não.
Ela saiu dos meus braços, alcançou o controle e voltou para os meus braços, achei aquilo tão fofo.
A TV ficou ligada em um programa de fofoca e adivinha o que estava passando? Sim, eu me assumindo gay. Ela se sentou no sofá. Ficou em silêncio a reportagem inteira, e depois desligou a TV.
– Ally, você está bem?
– Sim, por quê?
– Você se assumiu gay pro mundo?
– Sim, mais um ótimo motivo para estar bem. Se não fosse o episódio com a Frida, eu poderia dizer que estou cem por cento bem.
– Você está calma?
– Sim… Por que o espanto? Eu te disse que estava mais segura, mais verdadeira e destemida.
– E eu jurava que ia morrer sem ver você se assumir.
– Pois é, esse é só o começo, senhorita Monteigh, você vai se surpreender comigo. E espero que seja sempre pelo lado bom (risos).
– Nem imagino a cara dos teus pais.
– Sabe aquele dia que eu fiz aquela merda de sair da sua vida? Antes mesmo meu pai disse para eu não surtar, que até eles já tinham se acostumado com o nosso relacionamento, que era melhor eu assumir publicamente de uma vez.
– Seus pais? Falaram isso?
– Uhum…
– Como eles estão? Eles e teus irmãos?
– Estão bem. Sabe aquela foto que eu postei no Instagram de nós duas?
– Oh, se sei…
– Como assim “oh, se sei”?
– Eu ganhei mais de 4 mil seguidores depois que você e as meninas postaram fotos daquela tarde… É estranho isso, eles me seguem porque eu estava com vocês.
– Acostume-se a tendência é piorar. Já te disse que não importa o que aconteça, eu não vou desgrudar de você… E nem as meninas! Elas são suas fãs (risos). Mas voltando ao assunto, depois que eu postei aquela foto, o Kevin me ligou perguntando se a gente tinha voltado depois de nove anos. Meus pais me ligaram também.
– Ficaram bravos?
– Não, só me perguntaram mesmo. E te mandaram um abraço.
– Manda outro para eles.
– Ok.
Ficamos em silêncio, apenas abraçadas. Dava para ouvir sua respiração e eu poderia passar uma eternidade ali, eu juro que não reclamaria. Não mesmo!
Voltei para casa, e, por incrível que pareça, o fato de ter me assumido não foi algo que deu tanta repercussão. O que eu achei ótimo!

Depois de um tempo, fui pra casa de Lea. Chegando lá, Frida, sua cachorrinha, ficou brincando comigo enquanto ela pegava os talheres para cortar o bolo.
– Antes de cortar tem que fazer um pedido, Lea!
– É verdade, bem lembrado (risos).
Foi uma noite agradável. Rimos muito, comemos bolo de chocolate com champanhe, até que eu apaguei no sofá da sala.
Acordei com alguém mexendo no meu corpo. Vi que era a Lea que estava me carregando no colo, preferi fingir que ainda dormia (risos) e escutei ela falando comigo.
– Não vou deixar você dormindo no sofá, até parece que voltamos no tempo… Allyson, por que você me jogou da sua vida? Eu ainda… Chega, Lea, você está falando sozinha.
A minha vontade era de parar de fingimento e beijar ela ali, mas não podia, ela ficaria brava em saber que eu acordei e fingi dormir.
Acordei no dia seguinte radiante! Nem quando eu ganhei meu primeiro Grammy eu acordei tão feliz.
Fui procurando Lea pela casa, até que a encontrei dormindo no sofá. Resolvi preparar um café da manhã e depois acorda-la.
– Lea… Lea, acorde.
– Bom dia, Ally.
– Como eu cheguei até sua cama?
– Ah, eu te coloquei lá.
– Sua cama é de casal, então por que não dormiu lá? Tem espaço.
– Bom, primeiro que eu queria que você acordasse e tivesse uma visão agradável e não minha cara amassada e com um pouco de ressaca devido a bebida (riso). Segundo que eu já estive no seu quarto e a minha cama de casal é a metade da sua cama… Então pensei que você precisaria de espaço para estar confortável.
– Você ainda gosta de panquecas?
– Sim, por quê?
– Porque eu fiz panquecas! Do jeito que você gosta! Ou gostava.
– Sério? Vou lavar o rosto e já vou pra cozinha.
Fiquei mais um tempo com Lea e depois voltei pra casa. É claro que as meninas estavam já me esperando pra um interrogatório. Eu não tinha muita coisa a falar, nem um beijo, muito menos uma noite tórrida de amor. Mas, mesmo assim, eu parecia uma criança voltando da Disney.
Durante toda a semana trocava mensagens com Lea, era um bom sinal.
Estávamos divulgando uma nova música e por isso ficamos alguns dias dando entrevistas pra diversos repórtes de diversas partes do mundo, o que era bem legal.
Fiquei sabendo que o Steve, um dos repórteres, iria nos entrevistar… Steve é incrível, super bem humorado, sempre trazia perguntas de fãs e, bom, pensei que se ele perguntasse algo sobre relacionamentos, paixonites ou preferências, já estava na hora de me assumir.
Não vou mentir, estava com medo de como aquilo repercutiria, mas eu precisava tirar esse peso das minhas costas e, ao mesmo tempo, deixar bem claro pra Lea que eu estava bem comigo mesma e que eu me aceitava gay.
E a entrevista começou:
Steve: Olá, meninas! Parabéns por mais esse single incrível! Eu amei!
Nora: Obrigada, Steve! Estávamos com saudades de você! (risos).
Steve: Temos cinco perguntas dos fãs! Vamos fazer o seguinte: cada uma dá sua opinião, ok? Respostas individuais. Qual foi o cover predileto que vocês fizeram?
Clara: Red da Taylor Swift
Nora: Independent Woman da Beyoncé.
Eva: Not a Bad Thing do Justin Timberlake.
Dina: All of Me do John Legend.
Ally: Rude da banda Magic.
Steve: Quem está solteira, levante a mão.
Todas nós levantamos a mão.
Steve: O que vocês gostam de fazer nas horas livres, se é que vocês tem! (risos).
Clara: Comer besteira.
Nora: Tirar o atraso dos seriados que eu acompanho.
Eva: Jogar vídeo game.
Dina: Dormir… Dormir muito.
Ally: Ler, eu amo livros.
Steve: Ok, já foram três perguntas vamos pra quarta, o que mais chama atenção em um homem?
Clara: Humor. Curto caras bem humorados.
Steve: Fisicamente também!
Clara: Haa… Fisicamente… Eu gosto de caras da minha altura, ou seja, baixinhos.
Nora: Atitude. Isso me chama atenção e eu gosto de caras sarados (risos).
Eva: Homens com um romantismo vintage e altos. Acho lindo homem alto.
Dina: Gosto de homens que tenham mais atitude e fisicamente sarados… Eu e Nora temos gostos parecidos! (risos).
Era minha chance de dizer claramente que eu era gay, então respirei fundo e tentei tratar aquilo com naturalidade, como se todo mundo já soubesse.
Ally: Fisicamente… Bom, fisicamente dizendo, eu prefiro mulheres. Até por ser gay, eu não prefiro homens! Posso adaptar a pergunta, Steve?
Steve ficou branco. Ele era gay assumido e sabia que eu era gay… Até porque já fiquei com uma amiga dele há uns anos. Ele só balançou a cabeça enquanto as meninas olhavam pra mim com uma cara de “até que enfim”! E eu continuei falando.
Ally: Adaptando a pergunta (risos), eu acho lindo a boca e as pernas de uma mulher. E o que mais me chama a atenção também é a postura, como aquela pessoa trata os outros, e romantismo. Eu gosto de mulheres românticas.
Steve: Homens… E mulheres. Espero que tenham anotado as dicas (risos). Última pergunta, essa é clássica… Mas é sempre bom perguntar pra vocês, porque há sempre algo novo. Qual foi o maior mico ‘‘recente’’ que vocês já pagaram?
Clara: Escorreguei na entrada do hotel e só não cai porque a Eva estava atrás e me segurou.
Nora: Eu desafinei em uma apresentação acústica, há umas duas semanas, virou top vídeo do YouTube. Eu não ligo, vi umas 50 vezes e morro de rir.
Eva: Tem uma escada no nosso palco e eu caí dela.
Dina : Esqueci a letra justo na minha parte… Foi terrível (risos).
Ally: Tem uma parte em que nós dançamos mais perto do público e depois voltamos pra escada. Eu esqueci que tinha que voltar e fui pra escada, quando olhei pra frente as meninas todas lá e eu sozinha… Segurei tudo no “carão” e continuei a coreografia esperando elas.
Steve: Meninas, muito obrigado pela entrevista! Bom ver vocês! Quer imagens? Conteúdo exclusivo? É só clicar no link abaixo! Beijo!
A câmera desligou e todo mundo ficou tipo, “Ally, você tem noção que você acaba de sair do armário?”. Era engraçado a cara das meninas, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de eu não estar em pânico, apenas leve, feliz.
Quando peguei o celular tinha uma mensagem da Lea dizendo que precisava falar comigo. Liguei de imediato pra ela que me atendeu. Ela estava chorando muito.
– Ally, desculpa te atrapalhar.
– Não me atrapalha nunca! Por que você está chorando?
– A Frida…
– O que tem a Frida?
– A diarista deixou a porta aberta, a Frida saiu e foi atropelada… O motorista não fugiu da responsabilidade, todo mundo sabe que a Frida é minha, me chamaram correndo. Eu estou com ela aqui no hospital veterinário, o médico disse que ela não tem chances de sobreviver, pois machucou muito ela.
– Lea, eu sinto muito. Em que hospital você está? Aquele perto da sua casa? Um pintado de azul?
– É.
– Eu tenho mais duas entrevistas curtas pra dar, e vou sair correndo te encontrar, ok?
– Não precisa, não quero te atrapalhar.
– Querida! Você não me atrapalha, somos amigas, não somos?
– Sim.
– Me espera, ok?
– Ok.
Pra minha sorte, as entrevistas foram bem mais rápidas. Saí do hotel pelos fundos em um táxi e fui encontrar com Lea.
Chegando no hospital veterinário, lá estava ela de cabeça baixa, chorando em um canto.
Fui correndo até ela para abraça-la. Quando me viu, Lea parecia uma criança indefesa. Ficamos em silêncio, até ela me dizer que a Frida tinha morrido há uns cinco minutos. Foi inevitável, comecei a chorar junto com ela, sentia seu corpo tremendo de tanto soluçar.
Não havia mais nada a ser feito, então peguei o carro de Lea e fui dirigindo pra ela até chegar na sua casa.
Entramos, e fui fazer um chá enquanto ela não parava de chorar na sala. Me sentei ao seu lado enquanto ela tomava chá, fiquei fazendo carinho no cabelo dela.
– Eu não entendo o que eu tenho, Ally, eu sempre perco as pessoas que eu amo.
– A vida é injusta mesmo, Lea. Olha pra mim… Eu jamais vou deixar você. Jamais, ouviu bem?
– Não quero que você tenha pena de mim, Ally.
– Pena? Não! Eu tenho é amor por você.
Ficamos em silêncio uma olhando pra outra.
– Ally, eu…
– Não precisa me dizer nada, eu só quero que você saiba mais uma vez, que eu vou lutar pelo que eu sinto por você, que não é culpa, não é pena ou outra desculpa… É amor, eu quero que você se abra pra conhecer uma nova Ally, uma Ally mais madura, mais centrada… Menos homofóbica e preocupada com o que os outros vão pensar. Daquela Ally só sobrou o meu lado criança e meu amor por você. Talvez esse não seja o momento, sua cabeça está a mil, mas eu te peço, pensa com carinho.
Ficamos em silêncio e ela me abraçou, um abraço forte e demorado. Me inclinei e coloquei sua cabeça perto do meu peito, fiquei fazendo carinho, cafuné até ela se acalmar. Me sentia no paraíso.
– Gostei da sua roupa – disse ela quebrando o clima triste.
– Obrigada, estávamos todas produzidas. Eu gosto muito desse tipo de vestido.
– Está linda. Se importa se eu ligar a televisão?
– Claro que não.
Ela saiu dos meus braços, alcançou o controle e voltou para os meus braços, achei aquilo tão fofo.
A TV ficou ligada em um programa de fofoca e adivinha o que estava passando? Sim, eu me assumindo gay. Ela se sentou no sofá. Ficou em silêncio a reportagem inteira, e depois desligou a TV.
– Ally, você está bem?
– Sim, por quê?
– Você se assumiu gay pro mundo?
– Sim, mais um ótimo motivo para estar bem. Se não fosse o episódio com a Frida, eu poderia dizer que estou cem por cento bem.
– Você está calma?
– Sim… Por que o espanto? Eu te disse que estava mais segura, mais verdadeira e destemida.
– E eu jurava que ia morrer sem ver você se assumir.
– Pois é, esse é só o começo, senhorita Monteigh, você vai se surpreender comigo. E espero que seja sempre pelo lado bom (risos).
– Nem imagino a cara dos teus pais.
– Sabe aquele dia que eu fiz aquela merda de sair da sua vida? Antes mesmo meu pai disse para eu não surtar, que até eles já tinham se acostumado com o nosso relacionamento, que era melhor eu assumir publicamente de uma vez.
– Seus pais? Falaram isso?
– Uhum…
– Como eles estão? Eles e teus irmãos?
– Estão bem. Sabe aquela foto que eu postei no Instagram de nós duas?
– Oh, se sei…
– Como assim “oh, se sei”?
– Eu ganhei mais de 4 mil seguidores depois que você e as meninas postaram fotos daquela tarde… É estranho isso, eles me seguem porque eu estava com vocês.
– Acostume-se a tendência é piorar. Já te disse que não importa o que aconteça, eu não vou desgrudar de você… E nem as meninas! Elas são suas fãs (risos). Mas voltando ao assunto, depois que eu postei aquela foto, o Kevin me ligou perguntando se a gente tinha voltado depois de nove anos. Meus pais me ligaram também.
– Ficaram bravos?
– Não, só me perguntaram mesmo. E te mandaram um abraço.
– Manda outro para eles.
– Ok.
Ficamos em silêncio, apenas abraçadas. Dava para ouvir sua respiração e eu poderia passar uma eternidade ali, eu juro que não reclamaria. Não mesmo!
Voltei para casa, e, por incrível que pareça, o fato de ter me assumido não foi algo que deu tanta repercussão. O que eu achei ótimo!

E finalmente o conteudo da quinta parte