Era uma vez parte 2

Era uma vez | parte 2

No dia seguinte quando acordei, meu irmão Kevin começou a me irritar com perguntas que pra mim não faziam sentido, talvez por estar sonolenta.
– E, aí, maninha? O abraço da Lea é tão gostoso assim pra demorar mais de dez minutos em um único abraço?
– Quê?
– É o que diz aqui no site: “Integrante do grupo Girls é vista abraçando uma loira desconhecida, as duas estavam em clima de pura felicidade, e se abraçaram por mais de dez minutos! Será que a cantora Ally é gay?”
Meu mundo caiu, eu peguei o tablete das mãos de Kevin e fiquei relendo aquilo e vendo a foto, eu não acreditava naquilo, eu fiquei furiosa, ameacei processar o site, mas meus pais
se mostraram compreensivos.
– Calma, Ally, tome seu café e deixe isso pra lá – disse meu pai todo tranquilo.
– Acalmar? Pai! As pessoas não podem saber que eu sou gay!
– Por quê não?
– Eu não quero ficar taxada como a cantora gay, eu quero que as pessoas me vejam como uma boa cantora! Não sei se isso ajudaria no marketing, e, pelo amor de Deus, isso é horrível eu nem vi esse cara ou mulher batendo essas fotos!
– Paparazzi, minha filha, e enfim você e a Lea estão a quanto tempo juntas?
– Um ano e oito meses de namoro.
– Certo, você fez eu e sua mãe aceitarmos isso, que até então era incomum para nossa família. Acho que você deve contar para suas colegas de grupo e para os agentes e ver como você vai proceder sobre isso.
– Eu não posso contar isso… Eu preciso ir.
Peguei o carro e sai em direção ao hotel onde Lea sempre se hospedava. Subi as escadas e bati na porta com urgência.
– Quem é?
– Sou eu! Ally!
– Só um minuto, amor.
– Ok.
Quando ela abriu a porta, despejei as palavras como se fosse uma cachoeira.
– Seu celular está aonde?
– Bom dia pra você também, dona Ally! Está aqui, o que foi?
– Olha isso, leia isso em voz alta, por favor, Lea!
– Ok… “Integrante do grupo Girls é vista abraçando uma loira desconhecida, as duas estavam em clima de pura felicidade, e se abraçaram por mais de dez minutos! Será que a cantora Ally é gay?” Bom, eu ia fazer piadas, mas pelo seu humor é melhor eu nem começar.
– Não mesmo!
– O que você está pensando em fazer?
Essa pergunta me matou. Matou porque no fundo, por mais que eu a amasse, eu estava surtando de medo, de ser taxada como gay. Sim, eu sou uma gay e tenho preconceito comigo mesma. Desabei nos braços dela.
– Calma, respir,a meu amor, eu estou aqui… Eu sempre vou estar, você quer tomar uma água?
Ally, acalme-se, uma hora ou outra iriam saber que você é gay, iriam saber de nós!
– Eu não sou gay!
– Calma, amor…
– Eu não sei o porquê de ter essa coisa chata de ter que se classificar, de classificar sua sexualidade, ridículo!
– Ok, acho que eu estou começando a entender o que exatamente você veio fazer aqui.
– Lea…
– Me escuta, não demore muito nas palavras, não dê voltas, faça o que você acha que tem que ser feito.
– Eu te amo… Mas…
– Sem eu te amo, por favor, Ally.
– A gente precisa terminar por aqui.
O silêncio tomou conta daquele apartamento. Era possível ouvir meus soluços e a respiração da Lea.
– É isso que você quer, Ally?
– É o que eu preciso fazer… Olha pra mim, Lea.
– Não quero. Por favor, quando sair bata a porta.
– Deixa eu te beijar pela última vez…
– Você não é gay, Ally, sendo assim não pode beijar outra mulher… Tenha uma boa vida, eu vou pro banheiro lavar o rosto. Quando sair, feche a porta.
Parecia que tinham arrancado meus órgãos vitais, eu não conseguia respirar, só chorar e chorar. Sai daquele apartamento sabendo que cometia a maior burrada da minha vida, mas, ao mesmo tempo, por uma idiotice, eu achava aquilo necessário.
E nunca mais tive notícias da Lea. Depois de quase um ano, liguei, mas deu número inexistente.
O grupo foi algumas vezes ao Canadá e eu fui ao endereço que Lea tinha me dado, mas chegando lá um dos vizinhos disse que o pai da Lea tinha falecido, e que, depois disso, ela e a mãe venderam o imóvel e ninguém sabe para onde elas foram.
Procurei em todas as redes sociais, mas não obtive sucesso.
Lea desapareceu, e comigo ficou somente a visão dos olhos dela olhando para mim, ficou o cheiro da sua pele e o colar, no qual eu nunca tirei.

Related Posts

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked.