Era uma vez parte 3

Era uma vez – parte 3

Anos se passaram e eu não era mais a garotinha de 17 anos, já estava com 26. O grupo estava indo super bem, éramos sucesso onde passávamos, fãs incríveis e devotados, reconhecimento de público e crítica, Grammys, VMA, VMB e muitos outros prêmios bons nosso grupo já tinha. E não era só um exemplar de cada… Não mesmo.

Estar em um patamar tão alto é complicado: quanto maior o nível, maior o tombo. Por isso eu e as garotas trabalhávamos duro, virávamos noites trabalhando, estar com os grandes da música como Beyoncé, Justin Timberlake, Demi Lovato, Fifth Harmony, Adele, Bom Jovi, Nico e Viniz, Ricky Martin e um grupo incrível de artistas que vendiam álbuns e eram bem sucedidos era bem louco.

Como diz a Clara, nós nunca vamos nos acostumar a olhar pro lado e ver que estamos sentadas entre Madonna e Beyoncé em uma ou outra premiação.

Me mudei para Los Angeles, onde compramos uma casa. Digo “compramos” porque nós cinco resolvemos morar juntas, assim não ficávamos sozinhas.

Nossa vida pessoal não era muito agitada, nunca fomos artistas de escândalos e nós cinco continuávamos solteiras. Any namorou durante três anos, mas o cara estragou tudo e, desde então, somos cinco solteiras e não quatro.

A imprensa ainda especula minha sexualidade, afinal, nesse tempo todo de banda, eu nunca fui vista com nenhum homem, e todas já tiveram seus namorados e eu ainda não, e nem terei.

Não vou mentir, tive sim meus casinhos com algumas mulheres, mas nada que me preenchesse, nada que fizesse meu coração sentir nem que seja um por cento do que eu sentia quando Lea me abraçava.

Tudo era muito físico, sexo, beijos… Eu nunca pude dizer que fiz amor com “fulana”, porque fazer amor, AMOR, eu só fiz com a Lea.

Nossa vida era sempre exposta em fofocas super construtivas como: “Ally vai ao salão e sai com o cabelo preto”. Provavelmente, a vida de vocês deve ter mudado muito com essa notícia de imprensa marrom.

Mas tirando os fotógrafos e a imprensa, éramos artistas que conseguíamos ir a supermercados, shopping sem segurança!

Sempre fomos muito acessíveis, se alguém quisesse tirar foto, ou conversar um pouco… Bom, por que não? Afinal, temos consciência de que se estamos aonde estamos é porque temos fãs carinhosos, e o mínimo que podemos fazer é ser acessível.

Resolvi ir a uma lojinha, que é como um supermercado só que menor. Lá eles vendem produtos não americanos, tipo comida brasileira, ingredientes não comuns da culinária americana. Eu amo brigadeiro! Chegando no supermercado, fui analisando prateleira por prateleira e fui enchendo o meu carrinho.

Quando virei para a próxima sessão, bati de frente com o carro de compras de outra pessoa, e quando eu olhei, eu virei pedra, endureci: era a Lea, a minha Lea!

– Lea?

– Ally…

– Meu Deus! Eu não, não acredito nisso.

– Nem eu.

– Como você está?

– Bem e você?

– Estou bem sim.

– E sua mãe? Eu fui pro Canadá, tentei te achar nos intervalos da turnê, mas os vizinhos me contaram que seu pai morreu e que não sabiam pra onde vocês tinham se mudado.

– É, nos mudamos para Washington e depois que minha mãe faleceu, ha quase dois anos, eu arrumei um emprego em um escritório de advocacia e eles me transferiram pra cá.

– Sinto muito pela sua mãe, ela era uma ótima pessoa. Ela e seu pai sempre me trataram tão bem!

– É, eu tive bons pais… Seu cabelo ficou bom, gostei da cor.

– Obrigada! Bom, o seu não está dando pra ver pelo gorro, mas eu sei que você tem o cabelo lindo!

– É, eu tinha um cabelo bonito, mas já, já eu me recomponho.

– Como assim “tinha”?

– Ele está curto, está crescendo aos poucos eu tive câncer e tive que fazer quimioterapia, assim eu perdi meus cabelos.

– Nossa, eu sinto muito! Meu Deus… Você está bem?

– Sim. Já faz uns 5 meses que eu operei, cirurgia com sucesso… Bom, mas não pense que minha vida teve só desgraça (risos)! Tenho um emprego bom! E uma filha linda…

– Você adotou?

– Sim, minha cachorrinha, se chama Frida.

– Você sempre quis ter um cachorro…

– Verdade. Bom, foi bom te ver pessoalmente. Só te via na TV, outdoors, revistas… Gosto muito do seu trabalho, do grupo em si. Vocês estão de parabéns.

– Obrigada!

– Tchau.

– Lea…

– Sim.

– Fique com esse papel, tem meu telefone aqui, seria bom te ver de novo.

– Ok. Tenha um bom dia, Ally.

Ver Lea tão forte e, ao mesmo tempo, tão fraca, tão real na minha frente… Aquele sorriso mágico que me fazia tremer ainda estava ali apesar de toda a dor.

Voltei pra casa chorando, chorando como no dia em que terminei com ela.
Entrei correndo em casa e fui pro quarto, Clara, Eva, Norma e Dina foram atrás de mim preocupadas.

– O que houve, Ally? Por que você está chorando? – perguntou Eva, a mais velha de todas, também a mais doce, mais carinhosa e sempre se mostrando pronta pra ajudar a todas as outras e proteger a gente de qualquer coisa.

– Eu sou um monstro! Eu sou a pessoa mais burra do mundo!

– O que você fez, Ally? – perguntou Norma. Ela e a Clara são a dupla dinâmica, são extremamente palhaças, fazem pegadinhas nas turnês, o jeito como elas agem em todo o lugar… Eu nunca as vi falando sério… Não até aquele momento.

– Eu estraguei minha vida, eu abandonei meu amor, ela sofreu tanto esses últimos anos e ela não tinha ninguém pra cuidar dela! Eu sou uma imbecil!

– Gente, vamos fazer o seguinte: só eu faço as perguntas aqui. Sabemos muito bem que quando nós cinco resolvemos falar juntas, não dá certo – disse Eva organizando a bagunça. Sentando ao meu lado, ela continuou – Ally, de quem você está falando?

– Da Lea, ela foi minha namorada. Eu a conheci quando eu tinha 15 anos e me apaixonei. Nós enfrentamos os meus pais que com o tempo aceitaram, mas, ao mesmo tempo, eu me escondia da sociedade, eu sempre me escondi! Ela sempre esteve do meu lado! Ela sempre foi tão compreensiva e amorosa… Mesmo quando o intercâmbio dela acabou, ela sempre trabalhou dia e noite pra poder vir me ver! Ela me deu o presente mais incrível do mundo… Seu amor, seu coração e eu destruí tudo! Clara, abre essa gaveta, você vai ver uma caixinha azul. Me dá ela, por favor. – Clara me entregou a caixinha – Esse aqui é o colar que ela me deu antes de eu ir pra audição.

– O que está escrito aqui atrás do círculo? – perguntou Eva.

– “Você é o meu era uma vez…’’ – L . A letra L é de Lea. Nosso amor era perfeito! E eu estraguei tudo! Ela passou por tanta coisa sozinha, ela não tinha ninguém além dos pais. O pai morreu, a mãe morreu e eu não estava lá para dizer que tudo ficaria bem! Ela descobriu um câncer, enfrentou quimioterapias e eu não estava lá pra cuidar dela, caso ela passasse mal! Eu não estava lá pra ficar com ela depois da cirurgia.

Aos poucos contei toda a história para as meninas, e algumas me chamaram de burra pelo o que eu fiz e, na verdade, bom, eu sei que sim, eu sou burra.

O que mais me impressionou foi o fato delas não terem me julgado por ser gay, pelo contrário, me apoiaram bastante e disse que me ajudariam a consertar as coisas com a Lea, desde que eu não apenas estivesse sentindo culpa ou pena, mas sim amor.

Esperei por dias, semanas ela me ligar e nada… No fundo, eu entendia ela estar “arisca”, afinal, eu a fiz sofrer.

Aquele colar saiu da caixinha e voltou para onde nunca deveria ter saído, voltei a usá-lo na esperança de algum telefonema… Que nunca aconteceu.

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