Era uma vez parte 4

Era uma vez | parte 4

Passaram-se meses. Voltei naquele supermercado várias vezes, mas não dei a sorte de encontrá-la.
Um dia estava tocando piano na sala de música e escutei a voz da Dina me gritando. Fui correndo.
– O que foi, Dina?
– Eu consegui!
– O qu?
– Senta aí, gente, que a gênia aqui vai falar!
– Fala logo.
– Você disse que encontrou Lea no supermercado. Esses pequenos supermercados com produtos especiais são obrigados a fazer ficha de cadastro de cada cliente! Eu fui até esse supermercado, joguei um papo com os funcionários… Dei uns ingressos para nossos shows… E tive acesso ao banco de cadastros e foi lá que achei… Lea Monteigh!
– Jura?
– Jurado! E imprimi a folha! Aqui tem tudo: telefone, endereço residencial e dados pessoais como documentos, e-mail e uma porrada de coisa!
– Dina, eu te amo!!
– É, fica me devendo essa, ok?
– Ok! Mas eu não sei como chegar nela… Seria meio estranho dizer que você roubou os dados dela, subornando com ingressos pro show.
– Bom, é só fazer disso um encontro casual… Como foi o de vocês no supermercado!
– Eu não sei se eu gostaria de começar já mentindo ou omitindo algo…
– Bom, então vá a casa dela, convide-se pra entrar, converse um pouco, tente mostrar mais que você a quer por perto… Assim ela não vai te achar tão louca por aparecer do nada.
– Boa ideia! Assim que passar essa maratona de gravação, eu vou até ela! Esse tempo será bom pra que eu vá me preparando também.
Semanas se passaram e resolvi no sábado de manhã ir até a casa de Lea, era um pouco longe de onde eu morava. Achei o prédio e fui entrando, procurando pelo apartamento 501.
Toquei a campainha e esperei até que escutei o barulho das trancas se desfazendo atrás da porta.
– Ally?
– Oi… Posso entrar?
– Pode… Como me achou?
– Ok, isso é embaraçoso, mas Dina subornou com ingressos os funcionários daquele mercado, teve acesso ao banco de cadastro e, bom, foi assim que eu te achei.
– Hum…
– Cadê a Frida?
– Só um minuto, vou buscá-la.
Fiquei olhando o apartamento, pequeno, mas muito bem arrumado, procurando vestígios de algo que ela gostasse pra eu puxar papo.
– Ally, essa é a Frida.
– Ah, meu Deus, que coisa linda! Ela é muito fofa!
– É sim.
– Posso ficar com ela no colo?
– Claro!
– Por que não me ligou?
– Honestamente falando?
– É.
– Eu fiquei com medo, te ver na minha frente foi algo… Estranho.
– Está sendo estranho agora?
– Um pouco, ainda mais por você continuar em pé. Sente-se. Não é nenhuma cadeira de luxo, digna de uma super estrela…
– Eu não ligo com essas coisas.
– Quer café?
– Quero.
– Seu apartamento é bem decorado.
– Acha?
– Sim.
– Obrigada.
– Isso é desagradável, mas eu sou curiosa, então me perdoe a indelicadeza. Você teve câncer aonde?
– Ovário, mas estou bem.
– Graças a Deus, seu cabelo já está Chanel, está lindo. E também amei sua estante cheia de cds e dvds… Você sempre amou música.
– Me relaxa bastante.
– Posso ver?
– Pode.
Olhando a estante completa de cds e dvds, encontrei uma parte bem no fundo da estante, com alguns cd’s e dvd’s do grupo.
– Fico feliz de você ter cd’s do grupo.
– Eu aprecio o trabalho de vocês.
– Tem um autografado, como conseguiu?
– Minha colega de trabalho foi em um show de vocês, e lá ela conseguiu autógrafos de algumas de vocês.
– E está faltando o meu… Tem uma caneta?
– Você vai me dar um autógrafo?
– Sim! Se você quiser.
– Eu quero sim.
Assinei o cd com uma dedicatória e resolvi ir, já estava na hora.
– Ally, esse é meu cartão, fique com ele.
– Ótimo! Espero não ter te aborrecido por vir sem avisar.
– Tudo bem, não fiquei brava, apenas surpresa.
– Eu não vou tomar muito o seu tempo, eu só quero que saiba que eu gostaria muito de sair com você, pra conversamos um pouco… Eu sei que o que fiz no passado foi terrível e, acredite, não teve um dia em que eu não pensasse em você. Eu senti e sinto muito pelo rumo que eu dei pra aquilo que tínhamos… Dentro de mim, tem um buraco enorme, que é do seu tamanho… E eu não sou feliz. Minha carreira, meus fãs, as meninas, minha família… Eu tenho fama, eu tenho dinheiro, mas ainda falta… Algo. Algo que eu perdi quando te arranquei da minha vida. Eu sei que eu não posso chegar aqui e mudar o passado, mas eu gostaria muito, Lea, de ter uma chance pro futuro. As meninas querem muito te conhecer! Elas são muito engraçadas… Posso te ligar pra marcarmos algo?
– Claro. Você me liga?
– Claro! Bom, eu preciso ir… Até mais, Lea.
– Até.
Sai da casa de Lea e parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim, por mais que ela tenha me tratado bem. Eu sinto que quando eu a vejo, um imã me puxa pra ela e o que eu mais queria era abraçar, beijar, sentir ela.
Uma semana se passou e eu e as meninas resolvemos fazer algo em casa, curtir o sábado na piscina, jogar video game, algo parecido com a festa do pijama.
Resolvi ligar pra Lea, chamar ela e sua cachorrinha Frida. No começo, ela não quis aceitar o convite, mas Clara pegou meu telefone e a convenceu.
Eu estava prestes a surtar! Lea estaria na minha casa em menos de 30 minutos! Andei pela casa inteira… Parecia uma barata tonta.
Até que ela chegou. As meninas foram recebê-la. É, eu sei, isso é estranho! Por que eu não fui?
Porque eu não tinha pernas pra ir até lá.
Fiquei esperando no hall de entrada. Lea estava linda, de shortinho branco com uma blusa azul marinho, cabelos soltos e um sorriso que há muito tempo eu não via.
Sabia que esse sorriso não era por mim e nem pra mim… Era porque as meninas estavam brincando com ela de um jeito tão palhaço que era impossível não rir.
Até que ela estendeu a mão e me cumprimentou.

– Oi, Ally. Obrigada pelo convite.
– Oi. Lea! Eu fico muito feliz que tenha vindo.
– Bela casa a sua.
– Obrigada. As meninas que escolheram a casa, eu apenas concordei.
– Entendo.
Do nada, Dina nos interrompeu.

– ALLY!!! Eu e as meninas vamos numa loja, comprar… Comprar…
– Biquínis! – disse Clara, completando a frase.
– Mas, meninas, vocês já têm muitos biquínis! – Disse eu não entendendo a estratégia delas.
Sim, aquilo era uma desculpa esfarrapada para me deixar sozinha com a Lea.
– Não, não temos não! Olha, Lea, nós já voltamos! É coisa de uma horinha… Temos o dia todo pra nos divertir, então fica à vontade… A Ally vai mostrar a casa, e, enfim, fiquem bem à vontade, ok?
– Ok… – disse, Lea que, neste momento, parecia um tomate de tão vermelho o rosto.
E lá se foram as palhaças fingindo comprar biquíni.
– Desculpa, Lea, eu não pedi pra elas nos deixarem sozinhas…
– Eu sei que não. Elas acham que eu fui sua amiga?
– Não… Eu contei pra elas que você foi minha namorada.
– E elas estão bem? Sem desconforto algum?
– E por que estariam?
– Sei lá, quando… Aquele dia que acabou, achei que sua atitude era porque elas eram homofóbicas e não iriam te aceitar no grupo.
– Não, a homofóbica na época era eu, uma idiota, eu sei.
– Não te achei idiota…
– Deveria.
– Não tenho o direito de julgar ninguém… Cada um sabe o que leva no coração.
– De quem se leva no coração também… Mas, enfim, quer conhecer a casa?
– Quero sim!
– Me siga então! Começaremos um tour! (risos)
– Ok! (risos)

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