Era uma vez parte 5

Era uma vez | parte 5

Fui mostrando cômodo por cômodo para Lea. Sempre fazia alguma piada ou coisa do gênero, queria que ela visse que, no fundo, eu sou a mesma Ally, aquela que ligava pra ela toda vez que ficava com medo dos trovões, ou pra contar uma piada mesmo que fosse sem graça.
– E esse é meu quarto, o único lugar que eu consigo ficar sozinha, e mesmo assim, só as vezes (risos).
– Ficar sozinha nem sempre é bom…
– Senta um pouco…
– Como é isso de ser uma diva Pop?
– Diva?
– É assim que chamam você e as meninas!
– É, eu sei, mas é estranho você me chamando assim…Você me vê como uma “diva”?
– Meio que sim, tipo, você não é mais aquela menina de dezessete anos, nem de longe… Fisicamente, você está mudada e os anos também mudam a mentalidade da pessoa.
– Bom… Eu não vou dizer que eu não mudei… Eu mudei sim, mas acho que pra melhor! (risos). Eu estou mais confiante, mais segura de mim, como mulher também… Não é só minhas roupas, meu corpo e a cor do meu cabelo que mudou! Mas, por favor, não me ache diva… Eu sou uma mulher comum, ainda tem algo da Ally de dezessete anos aqui em mim.
Ficamos ali conversando um bom tempo, até que as meninas chegaram… E adivinhem? Sem os biquínis (risos). Deram a desculpa de não terem gostado de nenhum… Eu e Lea fingimos acreditar.
Fomos pra piscina e Lea não tinha trazido um biquíni, Clara emprestou um dela. Nós cinco ficamos esperando Lea aparecer, enquanto isso, as meninas me enchiam de pergunta, coisas como: se beijaram? Voltaram?
Como se fosse simples assim! Lea estava totalmente arisca comigo! E ela tinha todos os motivos pra isso… Eu pisei na bola feio com ela.
E Lea apareceu na piscina. Eu acho que eu fiz a cara mais boba do mundo, porque, quando me dei conta, as meninas estavam me olhando e rindo.
Lea estava linda. Ela sempre foi linda, sempre teve o corpo lindo, mas vê-la daquela forma… Aquilo me deixou afetada.
Ficamos conversando com o resto das meninas. Lea contou mais detalhes sobre o câncer, sobre o falecimento dos pais e contou também coisas sobre o serviço… Claro que eu prestei bastante atenção, afinal ela estava dando informações que antes eu não sabia.
– Garotas, vamos tirar fotos!
Disse Dina toda animada, e as meninas amaram a ideia. A princípio, Lea queria mais fotografar do que ser fotografada, mas as meninas a convenceram.
Tiramos uma foto de todas na piscina, e depois Dina propôs que uma por uma tirasse fotos com Lea, todas a abraçaram, deram beijos no rosto, fizeram caretas… E eu em pânico, tipo, “será que eu poço abraçar, ou sei lá”… E chegou minha vez.
– Gente do céu, se abracem!
Disse Clara, foi aí que senti as mãos de Lea no meu ombro, e ouvi seu sussurro:
– Posso?
Apenas acenei com a cabeça, estava sem respiração, reação ou voz… Vocês podem achar isso um exagero, mas se ponham no meu lugar!
Lea é a única mulher que eu amei em toda minha vida, foi com ela que eu fiz amor pela primeira vez, eu jamais poderia imaginar eu e ela nessa situação… Nossas fotos sempre foram as mais engraçadas, eu tinha que fazer algo pra quebrar aquele gelo.
Foi aí que tive a ideia de tirar suas mãos do meu ombro e colocar na minha cintura. Apesar de suas mãos estarem submersas, eu as senti tremendo.
Achei fofo aquilo, talvez dentro dela eu ainda tenha um por cento de chance de fazer a nossa frase valer pro resto das nossas vidas, e isso era tudo que eu queria. Sabia que esse processo seria lento, mas eu esperaria, por Lea, eu esperaria.
Saímos da piscina e fomos lanchar, as meninas começaram a postar fotos nas redes sociais. Claro que perguntaram para Lea se ela se importava em aparecer, ela disse que não. Então peguei meu celular e pedi para Dina me passar todas as fotos.
– Você tem alguma rede social?
– Só Instagram.
– Qual é o seu Instagram?
– leamonteigh.
– Posso te marcar na foto?
– Pode.
Coloquei uma foto com todas nós na piscina e outra minha com Lea… E na de nós duas escrevi: feliz. Acho que não tinha palavra mais perfeita pra definir o que eu estava sentindo, não me importava se algumas pessoas iam falar ou não… Já estava acostumada. As pessoas pegavam no meu pé por eu nunca ter namorado ou assumido alguém, então já teve todo o tipo de boato.
“Ally está namorando com o vocalista de tal banda”, “Ally está ficando com a colega de banda Clara”. Sim! Sobrou até para a Clara! Sempre tivemos a mania de nos abraçarmos, andar de mãos dadas, mas isso não só com a Clara, com as outras meninas também.
Mas, seja lá por qual motivo, a Clara foi a vítima e por anos e anos as pessoas achavam que eu e Clara namorávamos escondido… Clara levava isso na brincadeira, já eu? Bom, eu ficava extremamente brava.
Até que peguei uma conversa das meninas com Lea sobre o show.
– O que você vai fazer semana que vem, Lea?
– Fim de semana?
– É.
– Bom, eu vou visitar o túmulo da minha mãe. É aniversário dela e eu sempre visito.
Foi aí que eu me toquei: Lea e sua mãe faziam aniversário no mesmo dia! Preferi não me manifestar, mas já fiquei pensando no que comprar.
– À noite você já vai estar na cidade?, perguntou Nora.
– Sim, por quê?
– Então está fechado! Você vai no nosso show!
– Eu?
– Sim! Ou você não gosta?
– Gosto sim, eu já fui duas vezes… Claro que em outra turnê… Nessa nova eu não fui ainda não.
– Como assim você já foi? Aquele dia na sua casa você me disse que foi uma amiga que conseguiu os autógrafos delas pra você…
Disse eu toda bravinha, afinal se ela foi… Talvez não quisesse pegar o meu autógrafo.
– Como você mesma disse, Ally, na questão dos autógrafos foi minha amiga. Eu não fui com ela nesse show, porque foi quando minha mãe ficou doente. Mas eu já fui em show de vocês sim… Não fui na área vip, estava na multidão bem longe do palco… Alguém me empresta o celular pra acessar a internet?
– Toma o meu… Não acredito que você foi em um show meu e eu não te vi…
Me manifestei de imediato, aproveitei e sentei do seu lado. Pude ver ela entrando no site de compras de ingresso.
– O que você está fazendo?
– Estou comprando o ingresso.
– Não! Você é nossa convidada, não é pra você comprar não, Lea (risos).
Começamos a rir, e a tarde foi bastante prazerosa. Até que Lea disse que precisava ir embora. Quando ela se foi, a zuação estava completa e as meninas resolveram pegar no meu pé.
– Da próxima vez, vê se baba menos!
– Sua cara quando ela apareceu de biquíni, meu Deus, alguém tinha que ter filmado.
– Eu não sou gay, mas se eu fosse… Eu pegava! Meu Deus, que mulher linda!
– Você tinha o que na cabeça quando deu um pé na bunda dela, Ally?
– Gostei dela, simpática e humilde.
– Ela é um doce de pessoa!
Sim, isso é só um por cento dos elogios e zuação que eu escutei durante o resto da noite.
Quando fui me deitar, fiquei olhando pela janela e resolvi procurar uma rádio online.
Quando eu menos esperei, eu escutei os primeiros acordes da nossa música, a música que eu e Lea escolhemos a anos atrás pra chamar de nossa. “Heaven”, a música original é do cantor Bryan Adams, mas a nossa música é a com a banda Boyce Avenue. Foi a primeira música que eu cantei pra Lea, lembro bem de como foi.
Estávamos andando em frente ao mar. Achei uma pedra enorme, chamei-a pra perto de mim e entre beijos e mais beijos, eu comecei a cantar. Os olhos de Lea brilhavam.
E, naquela época, a música caia como uma luva prá nós… Agora então era perfeita, depois de anos longe e sem contato.
“Pensando nos nossos tempos de juventude / só existia eu e você / Éramos jovens, selvagens e livres / Agora nada pode lhe manter longe de mim…”
Esse era só o começo da música, e pra mim já fazia todo o sentido. Principalmente, a parte de que nada me manteria longe dela, nunca mais… Eu daria minha vida pra conquistar ela, pra recuperar o tempo perdido.
Quando estava quase pegando no sono, recebi uma mensagem, e, pra minha surpresa, era da Lea:

“Oi, está tarde, eu sei, é que bom, eu não sei se antes de sair eu lhe agradeci pela hospitalidade, você e as meninas foram muito legais comigo e com a Frida… Eu gostei muito de passar um tempo com vocês. Como eu não tenho o telefone das meninas, por favor, passe o recado a elas, e até sábado a noite. Mais uma vez obrigada por tudo. – Lea ’’
A semana passou voando e, bom, eu nunca estive tão ansiosa. Era a primeira vez que eu sabia que Lea estaria me assistindo e vou confessar… Treinei bastante o rebolado e as poses sexy’s, afinal eu sou mulher e queria arrasar pra Lea.
A noite do show chegou e o Bob, nosso segurança, disse que a nossa convidada especial já estava na área vip bem perto do palco do lado direito.
Tem um momento no meio do show, quando a gente está numa vibe mais romântica onde a gente sempre chama um homem da plateia, um fã e faz dele nosso “príncipe”, cantamos alguma música romântica, fazemos um “teatrinho”, nos derretemos pelo fã… Abraçamos, ajoelhamos, damos beijinho no rosto. Enfim é um momento divertido.
– Ally, vem aqui – disse Eva.
– Oi.
– Sabe na parte em que chamamos um fã pra cantar pra ele?
– Sei.
– As meninas e eu resolvemos mudar a música, pelo menos hoje não vamos cantar All of me.
– Como assim? Vocês nem me consultaram! Que música vocês querem cantar?
– “Not a bad thing”, do Justin Timberlake.
– É uma linda canção… Mas que parte eu vou cantar?
– A segunda estrofe, ela é a maior e antecede o refrão… Escolhemos pelo seu timbre de voz, sua voz sexy e rouca.
– Palhaça… A banda já sabe?
– Está tudo certo! Só faltava falar com você.
– Ou seja, eu sou a última a saber, mas ok, tranquilo, acho que o pessoal vai curtir.
– Óh, e como vai! (risos). Vamos aquecer a voz.
– Vamos.
Depois de mais de meia hora fazendo a – e – i – o – u e sons estranhos entramos no palco.
Casa lotada, todo mundo cantando e sabendo as músicas. Claro que por muitas vezes eu reparei na Lea, ela estava tão incrível com uma blusa de seda preta, cabelos soltos e estava se divertindo muito! Assim que demos um tempo das coreografias, as meninas foram dar um ‘oi’ pra ela. E eu também dei um ‘oi’ de longe.
Até que chegou o momento do “príncipe” e Eva começou o discurso:
– Quem tá apaixonado aqui, levanta a mão!!! Olha só, o cupido tá fortíssimo aqui (risos). Bom, como vocês já sabem, em todos os shows nós chamamos um homem para vir até o palco, sentar nessa cadeira e cantamos pra ele. Damos beijinho no rosto, cantamos perto da orelhinha… UI (risos)! Mas hoje será diferente… Não cantaremos John Legend… Vamos cantar Justin Timberlake! E não será um homem que virá aqui em cima, será uma mulher!
Foi essa hora que todas olharam disfarçadamente pra mim, e eu entrei em pânico.
As mulheres da plateia foram à loucura! Mas adivinha quem a Eva escolheu?
Exatamente, a Lea… O telão focou bem no rosto da Lea enquanto os seguranças abriam espaço pra ela no palco.
Eu entrei em pânico! Enquanto isso, Eva não parava de falar.
– Uma salva de palmas pra essa mulher linda! Lea, sente-se aqui e divirta-se hoje, nós vamos nos declarar para você.
A multidão gritava, Lea super vermelha de vergonha começou a rir (acho que foi de nervoso, ela é muito tímida).
Vocês já viram a letra dessa música? Não? Deveriam… Aí vocês iriam entender o quanto as meninas foram engenhosas nesse plano.
E a música começou. Eva se ajoelhou e segurou a mão de Lea e ficou cantando olhando nos olhos dela, enquanto isso eu pensando no que poderia fazer… Porque se eu ficasse distante no dia seguinte a imprensa me chamaria de homofobica, no mínimo, por não ter feito o que eu sempre faço nos outros casos, então eu resolvi agir “normalmente”.
E eis que chegou minha vez. Minha parte começava assim:
“Eu sei que pessoas fazem promessas o tempo todo / Depois elas dão as costas e as quebram / Quando alguém parte seu coração com uma faca / Enquanto você está sangrando / Mas eu poderia ser aquela garota para curá-la com o tempo / E não vou parar até você acreditar / Porque, querida, você vale a pena…”

É de admitir, ponto para as meninas, deu certinho com o que eu fiz com a Lea: fiz promessas, quebrei seu coração, sumi e agora aqui estou eu, querendo curá-la do mal que fiz e não vou desistir.
Como eu agi em cima do palco? Fui andando em sua direção, me agachei e passei a mão no seu rosto, fiquei fitando-a com o olhar, depois me levantei e dei um beijo enorme no rosto dela.
As meninas também fizeram coisas românticas, mas eu senti que ela ficou abalada com o que eu fiz! E foi tão bom saber que eu ainda consigo abalar ela com meu jeito de olhar.
Depois que Lea desceu do palco, nós continuamos o show e depois de umas nove músicas finalizamos a noite e fomos para o camarim, Lea seria levada depois até nós.
Eu confesso que aquele momento no palco, quando toquei seu rosto, eu não podia acreditar naquilo.
Quando Lea chegou no camarim, as meninas começaram a brincar com ela, enquanto eu fiquei tirando a maquiagem e a olhando pelo espelho.
Até que decidi chama-la para conversar em particular.
– E aí, gostou do show?
– Sim! Muito bom! Enquanto o pessoal saia, só ouvi comentários bons também.
– Fico feliz.
– Geralmente, depois do show, eu e as meninas vamos pra casa descansar, mas eu queria ficar um pouco com você, na sua casa, se você puder.
– Você deve estar muito cansada.
– Não vou mentir, eu estou… Mas eu sei que hoje é seu aniversário, digo ontem foi, porque já é quase duas da manhã… Eu comprei um bolo e queria passar essa data com você.
– Você se lembrou? Nossa, Ally! Não precisava gastar dinheiro comigo.
– Deixa eu comemorar com você? Nem que seja discretamente, sem muita zueira. Eu, você, Frida e o bolo.
– Ok… Eu vou indo pra casa, te espero lá.
– Ok.
Era incrível, mas ela tinha aceitado minha companhia. E eu que já estava pronta pra implorar (risos)!

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