Era uma vez parte 6

Era uma vez – parte 6

Depois de um tempo, fui pra casa de Lea. Chegando lá, Frida, sua cachorrinha, ficou brincando comigo enquanto ela pegava os talheres para cortar o bolo.
– Antes de cortar tem que fazer um pedido, Lea!
– É verdade, bem lembrado (risos).
Foi uma noite agradável. Rimos muito, comemos bolo de chocolate com champanhe, até que eu apaguei no sofá da sala.
Acordei com alguém mexendo no meu corpo. Vi que era a Lea que estava me carregando no colo, preferi fingir que ainda dormia (risos) e escutei ela falando comigo.
– Não vou deixar você dormindo no sofá, até parece que voltamos no tempo… Allyson, por que você me jogou da sua vida? Eu ainda… Chega, Lea, você está falando sozinha.
A minha vontade era de parar de fingimento e beijar ela ali, mas não podia, ela ficaria brava em saber que eu acordei e fingi dormir.
Acordei no dia seguinte radiante! Nem quando eu ganhei meu primeiro Grammy eu acordei tão feliz.
Fui procurando Lea pela casa, até que a encontrei dormindo no sofá. Resolvi preparar um café da manhã e depois acorda-la.
– Lea… Lea, acorde.
– Bom dia, Ally.
– Como eu cheguei até sua cama?
– Ah, eu te coloquei lá.
– Sua cama é de casal, então por que não dormiu lá? Tem espaço.
– Bom, primeiro que eu queria que você acordasse e tivesse uma visão agradável e não minha cara amassada e com um pouco de ressaca devido a bebida (riso). Segundo que eu já estive no seu quarto e a minha cama de casal é a metade da sua cama… Então pensei que você precisaria de espaço para estar confortável.
– Você ainda gosta de panquecas?
– Sim, por quê?
– Porque eu fiz panquecas! Do jeito que você gosta! Ou gostava.
– Sério? Vou lavar o rosto e já vou pra cozinha.
Fiquei mais um tempo com Lea e depois voltei pra casa. É claro que as meninas estavam já me esperando pra um interrogatório. Eu não tinha muita coisa a falar, nem um beijo, muito menos uma noite tórrida de amor. Mas, mesmo assim, eu parecia uma criança voltando da Disney.
Durante toda a semana trocava mensagens com Lea, era um bom sinal.
Estávamos divulgando uma nova música e por isso ficamos alguns dias dando entrevistas pra diversos repórtes de diversas partes do mundo, o que era bem legal.
Fiquei sabendo que o Steve, um dos repórteres, iria nos entrevistar… Steve é incrível, super bem humorado, sempre trazia perguntas de fãs e, bom, pensei que se ele perguntasse algo sobre relacionamentos, paixonites ou preferências, já estava na hora de me assumir.
Não vou mentir, estava com medo de como aquilo repercutiria, mas eu precisava tirar esse peso das minhas costas e, ao mesmo tempo, deixar bem claro pra Lea que eu estava bem comigo mesma e que eu me aceitava gay.
E a entrevista começou:
Steve: Olá, meninas! Parabéns por mais esse single incrível! Eu amei!
Nora: Obrigada, Steve! Estávamos com saudades de você! (risos).
Steve: Temos cinco perguntas dos fãs! Vamos fazer o seguinte: cada uma dá sua opinião, ok? Respostas individuais. Qual foi o cover predileto que vocês fizeram?
Clara: Red da Taylor Swift
Nora: Independent Woman da Beyoncé.
Eva: Not a Bad Thing do Justin Timberlake.
Dina: All of Me do John Legend.
Ally: Rude da banda Magic.
Steve: Quem está solteira, levante a mão.
Todas nós levantamos a mão.
Steve: O que vocês gostam de fazer nas horas livres, se é que vocês tem! (risos).
Clara: Comer besteira.
Nora: Tirar o atraso dos seriados que eu acompanho.
Eva: Jogar vídeo game.
Dina: Dormir… Dormir muito.
Ally: Ler, eu amo livros.
Steve: Ok, já foram três perguntas vamos pra quarta, o que mais chama atenção em um homem?
Clara: Humor. Curto caras bem humorados.
Steve: Fisicamente também!
Clara: Haa… Fisicamente… Eu gosto de caras da minha altura, ou seja, baixinhos.
Nora: Atitude. Isso me chama atenção e eu gosto de caras sarados (risos).
Eva: Homens com um romantismo vintage e altos. Acho lindo homem alto.
Dina: Gosto de homens que tenham mais atitude e fisicamente sarados… Eu e Nora temos gostos parecidos! (risos).
Era minha chance de dizer claramente que eu era gay, então respirei fundo e tentei tratar aquilo com naturalidade, como se todo mundo já soubesse.
Ally: Fisicamente… Bom, fisicamente dizendo, eu prefiro mulheres. Até por ser gay, eu não prefiro homens! Posso adaptar a pergunta, Steve?
Steve ficou branco. Ele era gay assumido e sabia que eu era gay… Até porque já fiquei com uma amiga dele há uns anos. Ele só balançou a cabeça enquanto as meninas olhavam pra mim com uma cara de “até que enfim”! E eu continuei falando.
Ally: Adaptando a pergunta (risos), eu acho lindo a boca e as pernas de uma mulher. E o que mais me chama a atenção também é a postura, como aquela pessoa trata os outros, e romantismo. Eu gosto de mulheres românticas.
Steve: Homens… E mulheres. Espero que tenham anotado as dicas (risos). Última pergunta, essa é clássica… Mas é sempre bom perguntar pra vocês, porque há sempre algo novo. Qual foi o maior mico ‘‘recente’’ que vocês já pagaram?
Clara: Escorreguei na entrada do hotel e só não cai porque a Eva estava atrás e me segurou.
Nora: Eu desafinei em uma apresentação acústica, há umas duas semanas, virou top vídeo do YouTube. Eu não ligo, vi umas 50 vezes e morro de rir.
Eva: Tem uma escada no nosso palco e eu caí dela.
Dina : Esqueci a letra justo na minha parte… Foi terrível (risos).
Ally: Tem uma parte em que nós dançamos mais perto do público e depois voltamos pra escada. Eu esqueci que tinha que voltar e fui pra escada, quando olhei pra frente as meninas todas lá e eu sozinha… Segurei tudo no “carão” e continuei a coreografia esperando elas.
Steve: Meninas, muito obrigado pela entrevista! Bom ver vocês! Quer imagens? Conteúdo exclusivo? É só clicar no link abaixo! Beijo!
A câmera desligou e todo mundo ficou tipo, “Ally, você tem noção que você acaba de sair do armário?”. Era engraçado a cara das meninas, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de eu não estar em pânico, apenas leve, feliz.
Quando peguei o celular tinha uma mensagem da Lea dizendo que precisava falar comigo. Liguei de imediato pra ela que me atendeu. Ela estava chorando muito.
– Ally, desculpa te atrapalhar.
– Não me atrapalha nunca! Por que você está chorando?
– A Frida…
– O que tem a Frida?
– A diarista deixou a porta aberta, a Frida saiu e foi atropelada… O motorista não fugiu da responsabilidade, todo mundo sabe que a Frida é minha, me chamaram correndo. Eu estou com ela aqui no hospital veterinário, o médico disse que ela não tem chances de sobreviver, pois machucou muito ela.
– Lea, eu sinto muito. Em que hospital você está? Aquele perto da sua casa? Um pintado de azul?
– É.
– Eu tenho mais duas entrevistas curtas pra dar, e vou sair correndo te encontrar, ok?
– Não precisa, não quero te atrapalhar.
– Querida! Você não me atrapalha, somos amigas, não somos?
– Sim.
– Me espera, ok?
– Ok.
Pra minha sorte, as entrevistas foram bem mais rápidas. Saí do hotel pelos fundos em um táxi e fui encontrar com Lea.
Chegando no hospital veterinário, lá estava ela de cabeça baixa, chorando em um canto.
Fui correndo até ela para abraça-la. Quando me viu, Lea parecia uma criança indefesa. Ficamos em silêncio, até ela me dizer que a Frida tinha morrido há uns cinco minutos. Foi inevitável, comecei a chorar junto com ela, sentia seu corpo tremendo de tanto soluçar.
Não havia mais nada a ser feito, então peguei o carro de Lea e fui dirigindo pra ela até chegar na sua casa.
Entramos, e fui fazer um chá enquanto ela não parava de chorar na sala. Me sentei ao seu lado enquanto ela tomava chá, fiquei fazendo carinho no cabelo dela.
– Eu não entendo o que eu tenho, Ally, eu sempre perco as pessoas que eu amo.
– A vida é injusta mesmo, Lea. Olha pra mim… Eu jamais vou deixar você. Jamais, ouviu bem?
– Não quero que você tenha pena de mim, Ally.
– Pena? Não! Eu tenho é amor por você.
Ficamos em silêncio uma olhando pra outra.
– Ally, eu…
– Não precisa me dizer nada, eu só quero que você saiba mais uma vez, que eu vou lutar pelo que eu sinto por você, que não é culpa, não é pena ou outra desculpa… É amor, eu quero que você se abra pra conhecer uma nova Ally, uma Ally mais madura, mais centrada… Menos homofóbica e preocupada com o que os outros vão pensar. Daquela Ally só sobrou o meu lado criança e meu amor por você. Talvez esse não seja o momento, sua cabeça está a mil, mas eu te peço, pensa com carinho.
Ficamos em silêncio e ela me abraçou, um abraço forte e demorado. Me inclinei e coloquei sua cabeça perto do meu peito, fiquei fazendo carinho, cafuné até ela se acalmar. Me sentia no paraíso.
– Gostei da sua roupa – disse ela quebrando o clima triste.
– Obrigada, estávamos todas produzidas. Eu gosto muito desse tipo de vestido.
– Está linda. Se importa se eu ligar a televisão?
– Claro que não.
Ela saiu dos meus braços, alcançou o controle e voltou para os meus braços, achei aquilo tão fofo.
A TV ficou ligada em um programa de fofoca e adivinha o que estava passando? Sim, eu me assumindo gay. Ela se sentou no sofá. Ficou em silêncio a reportagem inteira, e depois desligou a TV.
– Ally, você está bem?
– Sim, por quê?
– Você se assumiu gay pro mundo?
– Sim, mais um ótimo motivo para estar bem. Se não fosse o episódio com a Frida, eu poderia dizer que estou cem por cento bem.
– Você está calma?
– Sim… Por que o espanto? Eu te disse que estava mais segura, mais verdadeira e destemida.
– E eu jurava que ia morrer sem ver você se assumir.
– Pois é, esse é só o começo, senhorita Monteigh, você vai se surpreender comigo. E espero que seja sempre pelo lado bom (risos).
– Nem imagino a cara dos teus pais.
– Sabe aquele dia que eu fiz aquela merda de sair da sua vida? Antes mesmo meu pai disse para eu não surtar, que até eles já tinham se acostumado com o nosso relacionamento, que era melhor eu assumir publicamente de uma vez.
– Seus pais? Falaram isso?
– Uhum…
– Como eles estão? Eles e teus irmãos?
– Estão bem. Sabe aquela foto que eu postei no Instagram de nós duas?
– Oh, se sei…
– Como assim “oh, se sei”?
– Eu ganhei mais de 4 mil seguidores depois que você e as meninas postaram fotos daquela tarde… É estranho isso, eles me seguem porque eu estava com vocês.
– Acostume-se a tendência é piorar. Já te disse que não importa o que aconteça, eu não vou desgrudar de você… E nem as meninas! Elas são suas fãs (risos). Mas voltando ao assunto, depois que eu postei aquela foto, o Kevin me ligou perguntando se a gente tinha voltado depois de nove anos. Meus pais me ligaram também.
– Ficaram bravos?
– Não, só me perguntaram mesmo. E te mandaram um abraço.
– Manda outro para eles.
– Ok.
Ficamos em silêncio, apenas abraçadas. Dava para ouvir sua respiração e eu poderia passar uma eternidade ali, eu juro que não reclamaria. Não mesmo!
Voltei para casa, e, por incrível que pareça, o fato de ter me assumido não foi algo que deu tanta repercussão. O que eu achei ótimo!

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